Análise sobre o filme “Supergirl”, da Warner Bros. Pictures (a convite da própria, aqui no site Cebola Verde. Confira a ficha técnica da trama:
Nome: Supergirl
Estreia: 25 de junho de 2026 – 1h 50min
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira
Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet, Jason Momoa
Distribuidora: Warner Bros. Pictures
Gênero: Ação, Fantasia, Ficção Científica
ANÁLISE CRÍTICA DO JORNALISTA MATHEUS SANCHES
Vamos tirar o elefante da sala: o filme erra de forma substancial em como escolheu se vender para o público. O espectador que entra no cinema esperando isso vai se frustrar, porque, em sua essência, o longa é uma space trip contida, de escala muito mais humana e intimista. E é justamente por focar na jornada fechada de seus personagens, com uma estrutura que remete muito à leitura de uma graphic novel, que o filme encontra o seu maior charme.
A Vibe do filme
Apesar dos trailers forçarem uma inevitável comparação com o tom despojado de Guardiões da Galáxia, a atmosfera real segue caminhos bem diferentes. A ambientação bebe diretamente das novas produções de Star Wars, explorando uma galáxia de espécies variadas (onde o inglês atua de forma inteligente como língua franca universal), e adiciona a isso uma pitada inegável de Mad Max.
Essa estética de terra devastada transparece fortemente no visual dos vilões. Embora a escolha justifique a caracterização mais polêmica de alguns antagonistas, acaba fazendo com que o núcleo de ameaças soe um pouco genérico. Pelo menos há um alívio na direção de arte: os visuais finais são bem superiores ao material promocional fraco, mesmo passando longe de capturar a beleza estonteante e o traço onírico das HQs.
A força motriz da obra definitivamente não reside no vilão. Ele é um antagonista nada memorável que atua puramente como um “MacGuffin”, um motor narrativo para justificar a união das personagens e colocá-las na estrada. A trama engrena a partir de um ticking clock infalível: Krem mata a família de Ruthye e envenena Krypto. Com uma janela estreita de apenas três dias para encontrar o antídoto, o filme mergulha na dinâmica íntima entre as protagonistas.
A atriz faz sua parte!
O pilar central dessa jornada é, sem dúvida, Milly Alcock. Vestindo um dos trajes mais imponentes já feitos para o cinema, ela entrega uma Kara Zor-El inédita em live-action: impulsiva, traumatizada e profundamente emocional. O contraponto perfeito vem com Ruthye, uma jovem obstinada e frequentemente petulante que se coloca em perigo o tempo todo, forçando Kara a assumir um papel de protetora. É o peso do luto espelhado que as aproxima.
E o roteiro?
O roteiro se debruça sobre o passado e as cicatrizes emocionais delas com uma sensibilidade fascinante, lembrando muito o resgate de relatos, memórias e histórias orais tão comuns na construção de documentários. Ruthye entende, de forma crua, o buraco deixado pela perda que Kara carrega.
O trabalho da roteirista Ana Nogueira é um verdadeiro caso de estudo. Em seu primeiro roteiro, ela precisou equilibrar demandas corporativas pesadas do lore da DC — incluindo amarrar pontas deixadas por Superman (2025) — com a construção de uma jornada leve e ancorada na evolução humana. A dinâmica familiar e o contraste de vivências entre Kara e Kal-El formam um dos pontos mais altos do longa. O Superman de David Corenswet rouba a cena sempre que aparece, deixando o terreno perfeitamente preparado para o futuro.
No entanto, o roteiro cai em algumas armadilhas estruturais, especialmente na decupagem dos flashbacks de Krypton. A ideia de trazer uma visão inédita do planeta natal é fantástica, mas a execução peca por ser curta e repetitiva. Ao tentar condensar anos de vivência social e luto em poucas cenas, o texto recorre à exposição excessiva. Faltou aplicar a regra do “mostrar, não contar”, forçando os diálogos a entregarem tudo mastigado, quebrando um pouco a fluidez.
A peteca cai na direção
É aqui que a direção de Craig Gillespie também deixa a desejar. Ele falha em dar o tempo de tela necessário para que as protagonistas se aprofundem de fato nessa amizade; a relação merecia um ritmo menos atropelado. Gillespie também perde a mão no terceiro ato, cedendo espaço para uma decupagem menos inspirada e falhando em criar um clímax visualmente instigante.
Até mesmo adições carismáticas como o Lobo de Jason Momoa acabam operando apenas como artigos de luxo em uma trama que funcionaria perfeitamente sem eles.
Partes técnicas
Se visualmente o filme se defende bem, o design musical despenca. A trilha sonora é, indiscutivelmente, o calcanhar de Aquiles da produção. Sente-se uma falta constante de um instrumental coeso e poderoso que preencha a cena e amplifique a emoção.
As várias trocas de compositores nos bastidores ficam escancaradas em um resultado final fraturado, e a seleção de faixas licenciadas é pouco inspirada, entregando um clima “meia bomba” que não faz jus nem à carga dramática, nem à escala da viagem espacial.
Veredito
Supergirl é uma aventura sólida e divertida, que acerta em cheio no elenco principal e nas mensagens que propõe, mas sofre com decisões irregulares de quem estava atrás das câmeras. Mesmo com um final que pode dividir opiniões, a essência temática é poderosa: Kara precisa ser boa, mas ser boa não significa ser o Kal-El. Decisões difíceis precisam ser tomadas quando se carrega o mundo nas costas. É um filme imperfeito, mas com um coração gigante.


