Moana | Crítica

A "Banda Cover" de um Clássico Recente e a Película de Artificialidade

Análise sobre o filme “Moana”, da Walt Disney Pictures (a convite da própria), aqui no site Cebola Verde. Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Moana

Estreia: 09 de julho de 2026 – 1h 56min

Direção: Thomas Kail

Roteiro: Jared Bush, Dana Ledoux Miller, Ron Clements

Elenco: Catherine Laga’aia, Dwayne Johnson, John Tui

Distribuidora: Walt Disney Pictures

Gênero: Aventura, Comédia, Família

ANÁLISE CRÍTICA DO JORNALISTA MATHEUS SANCHES


Transição de Mídia

Vamos tirar o elefante da sala logo de cara: Moana (2026) falha miseravelmente em justificar a sua própria existência enquanto live-action. A animação original completou apenas 10 anos, e o hiato entre este lançamento e Moana 2 soa quase como um atropelo logístico. Vale lembrar que a sequência animada sequer recebeu o cuidado que merecia por parte do estúdio, o que foi concebido para ser uma série foi remendado e jogado às pressas nos cinemas. Foi um projeto com marketing confuso, mas que, ainda assim, faturou rios de dinheiro.

É impossível, portanto, não olhar para este live-action sem o gosto amargo do cinismo corporativo. Enquanto refilmagens como Cinderela, Mogli ou Branca de Neve buscaram trazer alguma atualização para a história (sendo elas bem sucedidas ou não), Moana joga no modo mais covarde e seguro possível, operando quase como uma reprodução quadro a quadro da obra de 2016.

A Síndrome do 1:1 e a Morte da Fisicalidade

O roteiro comete o erro primário de ignorar que o ritmo de uma animação e o andamento de um filme live-action são respirações completamente diferentes. Não há a menor intenção de se aprofundar nas motivações da personagem, trazer novas nuances ou adicionar cenas que justifiquem a nova versão.

Essa recusa em adaptar a obra, seja estendendo o que precisa de respiro ou cortando o que não funciona no formato realista, cria um andamento truncado. O filme não se movimenta de forma orgânica; ele soa amarrado a um storyboard antigo. A fluidez deliciosa de road trip marítima que a animação possuía se perde por completo, resultando em uma narrativa que se torna muito mais episódica do que o original.

É frustrante ver o diretor Thomas Kail ser desperdiçado. Tendo no currículo transposições brilhantes como Hamilton, ele já provou que entende o jogo de câmeras e a encenação musical. Aqui, porém, ele opera como um diretor puramente protocolar, sem espaço para imprimir uma visão própria.

A decepção técnica grita na tela. Embora a Disney tenha advogado intensamente sobre gravações em locações reais, a grande maioria do longa denuncia ter sido rodada em estúdio. O trabalho de fotografia é visualmente muito pobre: a iluminação de estúdio é chapada e artificial, matando qualquer profundidade de campo e sufocando a imensidão que o oceano exigia.

Isso contamina os personagens. A animação foi elogiada pela fisicalidade absurda, desde o peso de Maui até a fluidez dos cabelos de Moana. O live-action destrói isso. As perucas tiram o movimento orgânico dos atores e a “roupa de músculos” usada para simular as proporções do semideus deixa tudo robótico. Dwayne Johnson perde a energia anárquica do seu personagem, e Catherine Laga’aia não tem espaço para entregar nuances novas, presa à obrigação de ser um espelho sem vida da versão desenhada.

Na parte sonora, o filme sofre da mesma síndrome. A trilha instrumental não empolga e não preenche a cena, e a transposição dos arranjos perdeu o brilho e o carisma. O filme até tenta criar momentos um pouco mais lúdicos, não é uma transposição tão fria quanto O Rei Leão, mas o engajamento nunca atinge o mesmo pico. Assistir aos números musicais passa exatamente a sensação de ver uma banda cover tocando as suas músicas favoritas: as notas estão lá, mas falta a originalidade. A única novidade palpável é a faixa inédita, mas ela foi rebaixada para os créditos finais, unindo os elencos das duas mídias.

O Discurso vs. A Realidade Corporativa

Durante a coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, Dwayne Johnson defendeu que o filme é a representação “em carne e osso” dessas culturas e destacou a importância de uma atriz racializada protagonizar um blockbuster. Ele também pontuou como o estúdio tem confiança para deixar que suas histórias ensinam lições potentes sobre o luto e a ancestralidade.

As palavras são compreensíveis e nobres, mas não se sustentam na execução. Se o objetivo era aprofundar esses temas, a verba estaria muito melhor investida em Moana 3 (que o próprio The Rock confirmou já estar em conversas), ou em um spin-off que trouxesse uma história inédita. Essas lições de fato seriam mais potentes se a direção não estivesse tão engessada no compromisso de fazer um “copia e cola” do original para agradar o departamento financeiro.

Veredito

Se você vai conhecer essa história pela primeira vez, pule este filme e assista à animação original. Se você já é fã, talvez suporte a experiência pelo carinho que tem pela obra, mas não encontrará absolutamente nada de novo. Não há uma dinâmica nova, uma interpretação diferente, talvez algum diálogo ou uma piada a mais. Moana (2026) entrega a forte sensação de ser apenas um caça-níquel sem originalidade, onde a única real importância da produção para o estúdio foi a bilheteria.

Moana
Sinopse
Há milênios, a semideusa Te Fiti teve seu coração roubado por Maui, espalhando uma força sombria que ameaça a vida nos oceanos. Quando a escuridão atinge a ilha de Motunui, a jovem Moana, escolhida pelo próprio mar, embarca em uma jornada épica contrariando as ordens de seu pai. Sua missão é cruzar águas perigosas, encontrar o arrogante semideus e forçá-lo a restaurar o coração de Te Fiti, descobrindo no processo a sua própria identidade e salvando o legado de seu povo.
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Notas