O cenário audiovisual internacional testemunha um momento singular de expansão e
reconhecimento, mas o verdadeiro motor dessa transformação reside na autenticidade
das histórias locais
No palco principal do Rio2C, o Summit Acontece Globo propôs uma tarde de profundas reflexões sobre a cultura brasileira, novos formatos e as complexas dinâmicas de consumo que moldam a nossa identidade nacional nas telas e em múltiplos dispositivos.
A Essência da Brasilidade: Muito Além da Língua
O conceito de “brasilidade” consolidou-se como o fio condutor das discussões. Longe de ser um termo estático ou meramente geográfico, ele reflete a capacidade de traduzir a pluralidade de um país continental com verdade e respeito. A abertura do evento trouxe uma definição precisa sobre o papel do audiovisual na preservação e celebração dessa identidade.

“Formatos mudam o tempo todo, plataformas se transformam numa velocidade impressionante, mas existe algo que continua insubstituível: a brasilidade. Falar brasileiro vai muito além da língua.
É entender os sotaques, os regionalismos, o humor, o jeito de reagir às dificuldades e a forma única como o brasileiro enxerga o mundo. É isso que dá autenticidade às histórias.” — William Bonner, na apresentação da campanha Brasilidades
Essa visão reforça a premissa de um conteúdo feito por brasileiros para brasileiros. Em uma era de hiperconectividade, a estratégia de distribuição se fragmenta para alcançar o consumidor onde quer que
ele esteja — seja na televisão tradicional, no streaming ou nas redes sociais. A barreira entre os diferentes dispositivos deixa de existir, priorizando o alcance democrático da mensagem.
O Espelho da Cultura e a Construção do Hábito

A compreensão do comportamento do público ganhou sustentação científica com a apresentação da pesquisa inédita “Cultura no Espelho: como brasileiros enxergam e vivem a cultura brasileira”,
liderada por Suzana Pamplona (diretora de Pesquisa e Conhecimento da Globo) e Felipe Nunes (cientista político e CEO da Quest). Os dados lançam luz sobre como a identidade e os hábitos culturais
são formados. Um dos pontos centrais debatidos a partir do estudo é a estruturação do hábito cultural. As referências absorvidas na infância desempenham um papel crucial, impactando diretamente as escolhas e o consumo na vida adulta. Contudo, o acesso a essas manifestações ainda enfrenta desafios estruturais severos. Observa-se uma correlação direta em que, quanto maior o capital socioeconômico de um indivíduo, maior é o seu acesso efetivo à diversidade cultural do país.
A lacuna de ícones e as novas tendências culturais
As análises de comportamento revelaram um fenômeno geracional intrigante: a juventude atual manifesta um profundo orgulho por figuras históricas e ícones do passado cultural brasileiro. No entanto, o momento presente carece de novos ídolos com o mesmo peso de relevância e unanimidade. Diante desse cenário, surge a urgência de entender: como produzir novos ídolos? A resposta
aponta para três pilares essenciais:
- Representatividade: O público precisa se enxergar nas telas para legitimar novas lideranças artísticas.
- Modelos e Exemplos: A necessidade de figuras que sirvam de inspiração ética, estética e comportamental.
- Mapeamento de Tendências: O reconhecimento de movimentos de massa orgânicos, como o crescimento expressivo do gênero Sertanejo e da cultura Gospel, que hoje ditam grande parte do comportamento e do consumo nacional.
Histórias locais com alcance nacional

A descentralização da produção artística foi o tema do painel mediado por Dira Paes, focado no impacto das narrativas regionais. A premissa é clara: para contar o Brasil de forma autêntica, é necessário expandir o olhar para além do eixo tradicional de produção. A representatividade brasileira por todo o território ganha robustez através das lentes e do jornalismo das emissoras afiliadas da Globo. Atualmente, o projeto conta com 13 afiliadas integradas ativamente a esse ecossistema, com metas de expansão planejadas para o próximo ano.
A estratégia baseia-se na busca por roteiros originais e histórias inéditas, que nunca foram exploradas pela teledramaturgia ou pelo cinema nacional. Mais do que apenas registrar cenários, o compromisso estende-se à contratação de elenco local e ao fomento de produções regionais, gerando emprego, renda e capacitação técnica nas comunidades parceiras. Esse movimento não apenas amplia a representatividade, mas enriquece o repertório cultural que chega à mesa de milhões de brasileiros diariamente.

