A Alquimia da Autoria: O Sentimento Humano versus o Algoritmo na Composição Musical

Os painéis que discutem o futuro do mercado fonográfico costumam gravitar em torno de métricas de engajamento, estratégias de tráfego e ferramentas de otimização de distribuição

No entanto, quando criadores de diferentes vertentes se sentam para discutir a gênese de seu trabalho, a engrenagem mercadológica dá lugar à subjetividade


No palco do Rio2C, o painel “Música em Composição”, moderado por Pietro Reis, promoveu um encontro potente entre Rubel, Luedji Luna e as irmãs Tasha & Tracie. A conversa conectou de forma orgânica três dos temas mais urgentes da indústria contemporânea — criatividade, mercado e tecnologia —, funcionando como um manifesto em defesa da preservação da autoria e da autenticidade em um cenário cada vez mais digital.

A Pluralidade do Sentir: A Intuição como Guia Criativo

Se o mercado muitas vezes tenta enquadrar o sucesso em fórmulas matemáticas, os artistas deixaram claro que não existe uma receita única para a composição musical. A escrita é um processo vivo, mutável e profundamente ligado às raízes de quem cria. Para a dupla de rap Tasha & Tracie, o processo criativo flutua: há momentos em que a canção exige tempo, pesquisa e elaboração técnica meticulosa, enquanto em outros a letra emerge de forma espontânea e intuitiva. Suas obras são extensões diretas de suas vivências, histórias familiares e das realidades periféricas que as cercam.

Essa natureza intuitiva também foi ecoada por Rubel, que revelou vivenciar com frequência a criação inesperada. Versos e melodias costumam surgir naturalmente no decorrer do dia, demandando do artista apenas o exercício de estar atento e receptivo para acolher a inspiração quando ela se manifesta. Da mesma forma, Luedji Luna destacou a fluidez de sua escrita autoral. Suas músicas nascem de mergulhos em sentimentos pessoais e do olhar sensível direcionado às histórias de pessoas próximas, reafirmando o caráter artesanal e visceral de seu repertório.

O Mito do Hit Planejado e o Tabu da Viralização

Um dos momentos mais provocativos do debate orbitou em torno da pressão do mercado atual, que frequentemente insiste em medir o valor de uma obra pelo seu desempenho de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais. Tasha & Tracie ponderaram que, embora a experiência de estrada permita identificar quando uma faixa possui potencial mercadológico para alcançar as massas, esse cálculo nunca é o norteador da criação. O foco inegociável permanece na autenticidade e na urgência da mensagem a ser transmitida.

Para ilustrar a imprevisibilidade do sucesso real, Luedji Luna relembrou a trajetória de “Banho de Folhas”, um de seus maiores e mais longevos sucessos. A composição e a subsequente explosão da música aconteceram de maneira inteiramente orgânica e natural. A história da faixa serve como uma evidência viva de que o verdadeiro hit — aquele que atravessa o tempo e cria raízes na cultura — não pode ser fabricado em laboratórios de marketing ou previsto por planejamentos rígidos.

O Ritmo da Alma: A IA diante da Riqueza Cultural Brasileira

Como ponto de convergência inevitável das discussões sobre o futuro da arte, o impacto da inteligência artificial na música dividiu o espaço do painel. O posicionamento uníssono dos artistas trouxe um limite ético e estético muito nítido para as máquinas. Embora reconheçam que a tecnologia já está integrada às etapas técnicas da indústria cultural e possa atuar como uma ferramenta de apoio ao processo, os palestrantes defenderam que a IA é incapaz de simular a vivência cultural, a bagagem de sofrimento e alegria, e a sensibilidade artística que sustentam uma canção verdadeira.

“A inteligência artificial pode até processar dados, gerar padrões e mimetizar estruturas melódicas, mas ela carece de humanidade e ancestralidade. A riqueza da nossa identidade cultural, tecida por histórias e dores reais, é um diferencial estritamente humano e impossível de ser replicado digitalmente.”

Ao final, o debate deixou uma reflexão essencial para o mercado audiovisual e musical: em um ecossistema saturado de tendências passageiras criadas para alimentar plataformas digitais, a verdadeira inovação consiste em proteger o elemento mais humano da arte. A criatividade e a identidade cultural brasileira continuam sendo os nossos maiores ativos — e eles não podem ser traduzidos em códigos de programação.