SORORIDADE DA GUERRA, PARTE I: VELHAS FERIDAS

21 de maio de 2020

Publicado por Samuel Chaves

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Um novo conto foi postado na aba Universo, confira!


SORORIDADE DA GUERRA, PARTE I: VELHAS FERIDAS
POR IAN ST. MARTIN

“Alguma parte do que foi dito ficou confusa para você?”

Tifalenji ajoelhou-se na escuridão. Ela não ergueu a cabeça em resposta, já que a voz também fazia parte da escuridão. Calorosa e expansiva, ela preenchia a câmara com seu odor doce e enjoativo de flores putrefatas. Manifestações do tipo, no entanto, passam batidas para aqueles que sempre dedicaram a vida aos meandros e enredamentos das runas. Nem mesmo uma ferreira jovem como Tifalenji questionava o que lhe cercava agora.

Ela tinha discernimento para aceitar quando algo estava além de sua compreensão.

“Tudo ficou bem claro”, respondeu ela.

“Excelente.”

A escuridão rangeu, como se puxasse o fôlego. “Sua mestra falou muito bem de você… Engenhosa foi a palavra que ela usou.” A escuridão agora sussurrava com outra voz — aquela da instrutora de Tifalenji. “E, para pessoas engenhosas, nunca falta serviço.”

Tifalenji engoliu em seco. Ela sentiu o ar se deslocar e a temperatura da câmera aumentar, parecendo agora estar abarrotada de pessoas. Arriscando um relance de rabo de olho, ela avistou a bainha dos mantos das sombras que preenchiam as paredes, dispostas em volta dela e da fonte da voz.

“Olhe para a lua.” De repente, houve um pulso brilhante no céu, a luz fria refletindo em tons de prata contra o piso. “Observe o trajeto e a forma como ela se move.”

Cogitando o que podia estar por vir, sua mente acelerava, e os momentos que lhe restavam escorriam, um por um, como os grãos de areia numa ampulheta.

“Mas, acima de tudo, lembre-se da sua tarefa.” Irrompendo da escuridão, uma mão aninhou o queixo de Tifalenji. “O que mandamos você encontrar e recuperar para nós é insubstituível.” A mão levantou o rosto de Tifalenji, e ela enxergou um reflexo perfeito de si, à exceção do sorriso arreganhado de outra pessoa.

Você, por outro lado… já é outra história.


Erath era filho de Noxus. Nascido na primeira geração do clã após a fundação do império, seu treinamento começou no mesmo dia em que dera os primeiros passos.

Força. Disciplina. Determinação.

Foi criado com pastores, cuidando de rebanhos e animais de carga e garantindo o bem estar deles até a época da colheita. Aprendeu a matar, de maneira rápida e limpa, com a pequena faca que fora ensinado a jamais permitir que deixasse seu lado. Tal lição serviria bem no dia em que Noxus o chamasse ao dever.

Ele aprendera a matar os inimigos e os inimigos do império, mas jamais odiá-los. Afinal, bastava uma cerimônia para que qualquer inimigo do império se revelasse um membro desgarrado da família e fosse trazido com honra e propósito aos braços de Noxus, juntando-se a Erath nas fileiras para torná-lo mais forte.

Mate-os até que eles virem parte da família“, disse seu pai uma vez, quando mostrou a Erath as trilhas púrpuras e embotadas das antigas cicatrizes de campanha. Erath jamais sentiu ódio dos inimigos… mas, levando em consideração o que via à sua volta, não precisava saber quem iria enfrentar; desta vez, sentia pena.

As ruas estremeciam com a procissão sem fim das dezenas de milhares de soldados que percorriam as alamedas e avenidas do Bastião Imortal. Uma dezena de idiomas se sobrepunha no bradar dos ritmos primais de cânticos de batalha, chamados de marcha e canções militares. O poder avassalador do exército noxiano estava em exibição; as lâminas presentes, bem como as mãos que as empunhavam, eram oriundas de todas as partes do império. Destacamentos militares tribais percorriam as ruas, vestidos com pelagens e indumentárias cerimoniais, seguidos por coortes rigorosamente estruturadas de tropas envoltas em peitorais de ferro enegrecido e um contingente de soldados navais trajando o uniforme brilhante de Shurima.

Depois deles, havia mais outros, e assim por diante.

Inúmeros povos sob um único império. O espetáculo daquela demonstração pura de força era um alento ao coração de Erath.

Sua tribo agora descia da barca que os levara das planícies de Dalamor, ao sul, até a capital. Ele e os companheiros haviam se debruçado sobre os remos para admirar a visão do Bastião Imortal — o imponente monólito central de pedra antiga, visível dois dias antes de chegarem. Ele desviou o olhar do comandante Yhavi, que batia boca com um bando de contramestres, para contemplá-lo novamente, desta vez dentro dos limites da cidade. Retida pelo trio de torres gigantescas no centro do Bastião, a luz do sol encontrava-se presa como uma joia reluzente.

O pensamento do inimigo desconhecido voltou à mente de Erath, e ele sorriu. Quem poderia com isso aqui?

Donnis, um dos lanceiros, sacudiu os pensamentos de Erath, assentindo para o capitão que estava chamando. Ele rapidamente se aproximou de Yhavi, que acabara de receber uma resma de pergaminho com as ordens.

“Vamos partir logo mais”, começou Yhavi, na língua de sua tribo, enquanto examinava o mandado.

“Já disseram onde vamos lutar?”, perguntou Erath, deixando transparecer a empolgação sem querer.

“Não.” Yhavi franziu o cenho, apertando os olhos contra o texto noxiano antes de olhar para o menino. “Mas não vem ao caso. Você não vem conosco.

“Como assim?” Erath adotou a mesma expressão do comandante. “Eu vou ser seu escudeiro.” Erath conquistara essa honra em um julgamento de sangue antes da tribo partir. Era direito de Erath carregar o equipamento de guerra de Yhavi no trem de batalha, lubrificar e amolar sua lâmina relicária na véspera da batalha, além de armar o comandante e atar suas feridas e, na ocorrência de tamanha calamidade, cuidar do corpo de Yhavi caso caísse em batalha. Quem mais seria, se não Erath?

“Você ainda será o escudeiro de alguém”, disse Yhavi. “Só não o meu. Recrutaram você para outro posto.” Ele sentiu a confusão de Erath, e seu tom endureceu. “Por Noxus.

Erath afastou os questionamentos de sua cabeça. Com a expressão neutra e dura, endireitou a coluna e bateu o punho contra o peito em saudação ao chefe. “Pelo império.”

Yhavi retribuiu o gesto, anuindo com a cabeça em aprovação. “Todos vamos responder ao chamado com as lâminas afiadas e as mentes preparadas.”

Erath respirou fundo e deixou sua decepção de lado. “Estou preparado.”

O semblante soturno de Yhavi esmoreceu, e ele ofereceu ao garoto um largo sorriso. “Sei que está, Erath. Se ele pudesse ver você agora, sentiria orgulho. Tenho certeza.” Erath olhou para baixo por um momento, e Yhavi entregou-lhe um pequeno documento, selado e enrolado com firmeza. “Siga até o nono portão do Bastião, do outro lado do canal à nossa frente. Os legionários vão parar você. Mostre isso a eles.”

A mera menção à Legião Trifariana fez Erath corrigir a postura. Ele examinou o manuscrito. Era feito de papel claro e descolorado, em contraste com o pergaminho áspero usado no mandado da irmandade. Ele nunca viu papel antes. A sensação nos dedos era delicada.

“Parece que o destino preparou outro caminho para você, enhasyi“, disse Yhavi, dirigindo-se a Erath com a expressão tribal usada para guerreiros prestes a deixar a própria marca na guerra. Ele repousou a mão repleta de cicatrizes sobre o ombro de Erath antes de despachá-lo. “Siga com cautela.”


Erath cruzava as multidões da cidade que se preparava para a guerra em polvorosa. Para um garoto criado num remoto vilarejo pastoreiro, a dimensão de tudo era estarrecedora. Monumentos imponentes e construções de pedra, ferro e vidro pairavam sobre as ruas desgastadas pelos exércitos que marchavam rumo à próxima campanha. Erath seguia o fluxo da corrente humana, mal conseguindo levantar os braços na multidão. Ele nunca cogitara que poderia haver tantos povos e tantas línguas. Eram tantos estímulos que quase chegavam a sobrecarregá-lo, mas ele concentrou-se na missão.

Poucos na tribo eram versados em noxiano, mas Erath sabia uma quantidade razoável de va-noxiano, a língua falada unificada, e quase nada da língua escrita formal do império. Era o suficiente para adivinhar as placas e gravuras que o guiariam até o nono portão, logo à frente, onde deveria se apresentar ao novo comandante.

Segurando sobre o ombro o embornal de pano que continha seus equipamentos, Erath colocou a mão por dentro do gibão, relando o pingente de osso que usava no pescoço. Ele descansou a mão sobre o pingente por um breve e reconfortante momento, antes de sentir o toque da folha, descolorada e enrolada com firmeza, que detalhava suas ordens. O valor que ela representava fez sua mente disparar com indagações a respeito da identidade deste novo líder e da importância da missão. Ele estava tão absorto nos pensamentos que sequer reparou ao ser coberto pelas sombras proeminentes projetadas sobre o pátio do portão.

Khosis g’vyar!

O trape-zape agudo do metal fez Erath congelar. Ele tirou os olhos do chão e deu de cara com as lâminas reluzentes de duas alabardas, ambas maiores que ele e apontadas diretamente contra o seu coração. Segurando as lanças, monstros com peitorais de ferro enegrecido e capas esvoaçantes em tons de sangue vivo o encaravam por detrás das máscaras impassíveis dos elmos de guerra rebitados.

A respiração de Erath entalou no pescoço. Legionários trifarianos. Então percebeu que os portões não tinham grades. Esses dois, membros da elite guerreira noxiana, eram as grades.

Um dos legionários repetiu as palavras de ordem, cuja projeção e guturalidade eram elevadas a níveis desumanos por conta da máscara. As palavras carregadas desse estranho dialeto não eram familiares a Erath.

Isso era mesmo va-noxiano? Erath apertou os olhos, esforçando-se para lembrar o que havia aprendido. O guerreiro inclinou a cabeça e pigarreou com o som de cascalhos desmoronando.

“Onde ir, pequena lâmina?”, perguntou o legionário, com um tom mais contido.

Como se houvesse finalmente alcançado a superfície para evitar um afogamento, Erath soltou a respiração ao finalmente reconhecer as palavras. No entanto, sua língua agora o traía, cerrada e imóvel, evitando desesperadamente permitir que os dentes começassem a se bater. Lentamente, ele estendeu a mão pelo gibão, estremecendo com a tensão dos legionários, e apresentou o rolo.

Os guerreiros trocaram um olhar, e um deles, o mesmo que falara antes, lançou a alabarda sobre o ombro. Ele avançou em direção a Erath a passos pesados, parando a um mísero passo do garoto. Erath olhou para cima, mal alcançando o peito do homem, e estendeu o mandado.

O legionário então arrancou o papel das mãos, que parecia ridículo entre os dedais grossos de suas manoplas. Com um breve aperto, ele esmagou o selo em seu punho e o documento se desenrolou com uma chuva de pequenos pedaços de cera vermelha. Depois de analisá-lo por um instante, o legionário girou sobre os calcanhares e martelou a coronha de sua alabarda três vezes contra o piso de pedra polida, o estrondo de cada impacto reverberando ao longo do arco escuro do portão.

Em poucos segundos, Erath ouviu ecoar o leve estalido de um par de sandálias se aproximando. Uma silhueta encoberta por um manto emergiu da escuridão do portão, as feições ocultas pela sombra de um capuz vermelho. Ela parou diante do legionário, impávida perante seu porte ameaçador e encouraçado, e tomou dele o documento.

“Siga-me”, disse ela para Erath, sem sequer o dirigir o olhar antes de virar e começar a atravessar o pátio. Erath correu atrás dela, espiando por cima do ombro para observar o legionário voltar ao posto junto de seu companheiro de guarda.

Seguindo a mulher coberta por mantos, Erath cruzou outro canal e se adentrou as profundidades da cidade movimentada junto a ela. Os dois ativeram-se às ruas laterais, evitando as avenidas maiores, que fervilhavam com a movimentação das tropas e encontravam-se completamente obstruídas por barracas de campanha.

Em pouco tempo, Erath começou a sentir aromas fortes no ar. Palha, grama cortada, esterco… cheiros familiares a qualquer pastor ou guardador de animais. Ele ouvia o ruído baixo de animais. Reconhecia alguns, mas não a maioria.

O beco estreito por onde passavam chegou ao fim, abrindo-se em uma praça larga e cheia de pessoas cuidando de animais. Bestas de carga gigantescas pastavam em lotes confinados. Homens e mulheres conferiam os apriscos das ovelhas e contavam as galinhas em suas gaiolas. A impressão de Erath era que a área algum dia já servira a outro propósito, talvez como parque ou jardim público, mas agora havia sido ocupada e usada em decorrência da maior mobilização.

O conforto da familiaridade tomou conta de Erath e tranquilizou sua mente, até que pararam diante de uma caserna na periferia da praça. A mulher trajando o manto devolveu o pergaminho a Erath e puxou a abertura, gesticulando para que ele entrasse e desaparecendo assim que o fez.

O forte aroma de especiarias de um incenso tomava conta do ar frio e pesado da barraca, fazendo os olhos de Erath lacrimejarem. Ele torceu o nariz na entrada, apertando os olhos para tentar esmiuçar o interior. A única luz vinha de uma figura ajoelhada no centro da barraca, cujos braços teciam um fio de runas verdes brilhantes nos entornos de uma espada que pairava suspensa acima dela.

Erath parou para observar a magia, fascinado com a dança elegante das runas à medida que, uma a uma, eram gravadas na lâmina da espada e desapareciam. Ele lembrou-se de sua infância, quando observava os xamãs de sua tribo transformarem o ar em fogo para os rituais. Evitava olhar diretamente para os símbolos, ofuscantes até mesmo de relance. Ao desvanecer da última runa, a mulher virou o rosto levemente, apanhando a lâmina no ar e se levantando.

“Estou pronto para servir!” Erath voltou à realidade e bateu uma continência. Ele ofereceu o rolo para ela. “São as minhas ordens.”

A mulher o ignorou, movendo-se como se estivesse em transe para colocar a lâmina em um cavalete de armas. Ela acendeu uma lanterna no centro da barraca, banhando os dois com uma suave luz âmbar. Era alta, e sua pele escura remetia a uma origem muito distante dos confins gelados e hiperbóreos de onde Erath vinha. Ela lançou os olhos em sua direção, e ele viu a mesma luz verde das runas cintilar neles.

“É alfabetizado?”

Erath hesitou. O va-noxiano dela carregava um sotaque compassado e melífluo, muito diferente das vozes curtas e guturais que ouvira na capital até então. Os olhos da mulher se estreitaram.

Você é alfabetizado?”, perguntou ela novamente. Ela parecia cansada ou entediada, Erath não sabia ao certo.

Ele assentiu. “Sei um pouco da língua escrita, senhora.”

“Você leu isso?”, perguntou ela, segurando o rolo que Erath acabara de perceber que não estava mais em suas mãos.

“Não, senhora.” Erath balançou a cabeça.

“Ótimo”, disse ela, bruscamente, enfiando o rolo de papel na manga. “Meu nome é Tifalenji e, a partir de agora, minha palavra é lei para você. Basta ler, pensar e fazer tudo na mesma hora que eu mandar e iremos evitar muito aborrecimento. Entendido?”

Erath bateu outra continência. “Sim, senhora.”

“Assim que sairmos da capital, não quero mais saber de continência.” Tifalenji pegou o livro de uma mesa e começou a folhear seu conteúdo.

“Posso fazer uma pergunta, senhora?”

Ela ergueu o olhar. “Não se acostume.”

“Como posso servi-la?”, perguntou Erath. “Quais serão meus deveres?”

Tifalenji fechou o livro. “Precisava de alguém versado no cuidado e manutenção de animais, jovem e que lidasse bem com o frio. Você veio das planícies de Dalamor, certo?”

“Sim, senhora”, retrucou, lutando para esconder a raiva em sua voz. Ele quase precisara matar o primo para vencer o julgamento de sangue e tornar-se o escudeiro do chefe… agora voltaria a cuidar de animais? “Eu era pastor.”

Ela ofereceu um leve sorriso, e Erath poderia jurar que ouviu algo rosnando logo atrás dele. “As criaturas que vão receber seus cuidados por aqui podem ser mais… exóticas.”

A aba da tenda se abriu com o estalar de uma chicotada. Erath se virou, a mão indo de imediato ao encontro do cabo de sua faca.

“Eu não faria isso”, disse Tifalenji, assim que Erath descobriu de onde vinha o rosnado.

Quatro cães-dragão enfileiraram-se na entrada da tenda. Feras elegantes, de musculatura forte e retesada, carapaça óssea e garras afiadíssimas. Quando era menino, Erath ouviu histórias da época em que as tribos das planícies foram incorporadas ao Império, que contavam como o chefe dos chefes fora homenageado com um filhote de cão-dragão, um presente no valor de mais de três carroças de prata. Ele nunca tinha visto um de perto, muito menos uma matilha inteira.

Uma mulher em um brilhante peitoral de guerra estava atrás deles, lançando um olhar irritado por trás de uma máscara blindada. O cabelo era de um vermelho carmim deslumbrante, preso no topo da cabeça e fluindo como uma cascata nas costas. Os cães se separaram quando ela entrou na barraca, um par de cada lado.

“Arrel.” Tifalenji inclinou a cabeça. “Você foi bem rápida, rastreadora.”

Erath não conseguia tirar os olhos de Arrel, incapaz de conceber que alguém teria quatro cães-dragão. “Você é da nobreza, senhora?”

Arrel lançou a Erath uma expressão tão cinza e gélida quanto a armadura que vestia, depois tornou a fitar Tifalenji.

“É o nosso escudeiro”, explicou Tifalenji a Arrel, antes de olhar para Erath. “Não é do nosso feitio enviar a nobreza para Tokogol.”

“A fronteira ocidental”, completou Erath. “E o que achou de Tokogol, senhora?”

“Fria”, resmungou Arrel. Sua voz era grave. Seu sotaque, severo.

“Entendi”, assentiu Erath. “E sua jornada até aqui, como foi?”

“Longa.” Arrel voltou a encarar Tifalenji. “Essa coisa sempre fala tanto assim?”

Erath vacilou. “E-Eu a desagradei, senhora?”

“Quarto”, chamou Arrel. Um dos cães-dragão se adiantou para o lado de Arrel, posicionando-se entre ela e Erath. A violência da fera parecia prestes a rebentar de seu porte musculoso. Fios de saliva escorriam de sua máscara óssea, calcados com a espuma produzida pelo rosnar da garganta.

“Se me desagradar, escudeiro”, disse Arrel, “este cão não vai deixar sobrar dúvida nenhuma. E eu não sou sua senhora.”

“Perdão.” Erath deu um passo lento para trás. “Como prefere que me dirija a você?”

“Fora quando necessário, de jeito nenhum.” Ela estremeceu, como se as poucas palavras proferidas já fossem suficientes para irritar sua garganta. Sacudindo o pulso, sinalizou o fim da conversa.

“Um contramestre está coletando nossos suprimentos do lado de fora”, disse Tifalenji, entregando a Erath um pedido de requisição. “Vá encontrá-lo.”

Erath respirou fundo, elevando-se nas pontas dos pés para passar por volta de Arrel e seus cães e sair da barraca. Ele ouviu Arrel fazer uma pergunta ao sair, a mesma que ainda se perguntava:

“Por que estou aqui, ferreira?”


“Nunca tinha visto um basilisco, hein, garoto?”

Erath mal ouviu o contramestre, sua atenção consumida pelo animal pujante e robusto diante dele. A carne verde deste sauriano gigantesco era dura como ferro e apresentava densas protuberâncias de bandas musculares, indo desde os membros achaparrados até a cauda longa e espessa. A impressão de Erath era que o basilisco seria capaz de esmagar um homem feito panqueca sem sequer pestanejar.

“Do que costumava cuidar?”, perguntou o intendente.

“Ovelhas,” respondeu Erath.

“Ah, não se preocupe”, retrucou o contramestre, dando leves tapas nas costas de Erath. “Só encará-lo como uma ovelhona. Ele ainda é filhote, então não deve dar trabalho. O tempo ainda não o deixou brabo.”

“Isso…”, indagou Erath, os olhos arregalados para o homem. “É um filhote?”

O contramestre riu. “Aqui só usamos artilharia pesada contra as muralhas do castelo, jovem.”

Erath olhou para a requisição que a ferreira rúnica o atribuiu. Felizmente, fora escrita em termos simples e consistia basicamente de números, e o contramestre o ajudou com tudo que não conseguiu entender. O basilisco seria capaz de transportar um acampamento inteiro nas costas mas, mesmo com os cães-dragão de Arrel, parecia equipamento demais para três pessoas.

“Tudo em ordem por aqui?” Tifalenji surgiu atrás de Erath. Ela agora trajava a armadura completa, sua espada com runas cinzeladas nas costas e uma mochila de lona aos pés.

“Tô mostrando tudo para ele”, respondeu o contramestre. “Já carregamos quase tudo, faltam os odres de água. Vamos cuidar disso em seguida, e aí vocês estarão livres pra seguir viagem.”

“Ótimo”, disse a ferreira rúnica, conferindo a altura do sol. “Nos juntaremos às caravanas partindo da entrada ao sul. Precisamos estar na estrada e longe da cidade antes do anoitecer.”

“Na estrada?”, perguntou Erath. Desde o momento em que chegou à capital, Erath presenciara os diversos exércitos e batalhões de Noxus, incluindo sua própria tribo, marchando rumo às embarcações de guerra no cais. “Não vamos atravessar o mar junto com os outros?”

A ferreira rúnica balançou a cabeça. “Não, ainda temos assuntos a resolver no continente. Há alguém que precisamos encontrar primeiro.”


Eles deixaram o caos ordenado da capital para trás. A silhueta do Bastião Imortal dominava o horizonte quando Erath, Arrel e Tifalenji juntaram-se a uma enorme procissão de tropas que se deslocava para o leste através das estepes ao sul de Noxus. Elas marchavam tal qual uma serpente colossal de bandeiras vermelhas e ferro escuro, atravessando as superfícies aplainadas que lembravam Erath de sua casa em Dalamor.

“O problema é que há demais de nós”, dissera um sargento velho de guerra a Erath enquanto esperavam na fila de racionamento certa noite. “As docas da capital são enormes e, mesmo que funcionassem dia e noite — coisa que já fazem —, não dariam conta da mobilização inteira “.

“É por isso que estamos indo para o leste?”, questionou Erath.

O sargento grunhiu e sorriu para o copo de latão amarrotado ao vê-lo ser preenchido com ensopado e um pedaço duro de pão preto. “Enquanto aquele pessoal faz companhia aos ratos nas vísceras de um barco úmido, demos a sorte de esticar um pouquinho as pernas antes de nos separarmos para atracar na costa”.

“E depois disso?” Erath assentiu em agradecimento ao cozinheiro enquanto recebia sua própria porção. “Para onde vai todo mundo?”

“Ninguém te contou?”, indagou o sargento, incrédulo. “Estamos indo para Ionia, garoto.”

Erath tropeçou, seus dedos dormentes quase deixando cair a comida. Ele tateou o peito em busca do pedaço de osso que usava como pingente. Ionia.

“Você está empatando a fila”, disse o sargento em desaprovação.

“Da última vez…”, sussurrou Erath. “Foi na época da guerra. O império convocou metade dos homens da minha tribo para lutar nela.” Ele olhou para o sargento. “Ninguém nunca voltou.”

“Parece que vai ser uma boa chance para dar o troco, sangue por sangue.” O sargento puxou a gola da túnica e revelou uma terrível cicatriz vermelha que se ramificava como um raio para todos os lados do peito. “Foi magia. Vários de nós têm assuntos inacabados por lá, garoto. Fomos todos muito pacientes. Agora é hora de acertar as contas.”

Um sorriso amarelo foi o máximo que Erath conseguiu oferecer ao sargento antes de voltar ao alojamento. De repente, seu apetite havia sumido.

A marcha continuou, rápida e monótona. Conforme os dias se passavam, mais segmentos do trem de batalha se separavam, rumo a docas às quais tinham sido alocados para a mobilização. Erath continuava se sentindo deslocado das companheiras. A ferreira rúnica Tifalenji era distante, e Arrel, hostil, então ele se concentrou na tarefa para a qual fora chamado e cuidou do basilisco gigantesco do grupo.

Apesar do tamanho e força descomunais da criatura, o contramestre da capital estava certo. Erath o achou dócil e receptivo a seus cuidados, algo que esperava que, com o tempo, pudesse dizer também dos cães-dragão de Arrel, embora não contasse muito com isso. A matilha orbitava a noxiana encouraçada a praticamente todo momento, completamente obediente à líder.

Erath começou a chamar o basilisco de Talz, o mesmo nome do velho cão-pastor de quando era menino. O colosso sauriano começou a responder ao novo nome à medida que Erath o levava para pastar e cuidava para que se comportasse no comboio.


Uma semana depois do começo da jornada, a ferreira rúnica reuniu o grupo para anunciar que, embora o pelotão principal fosse avançar para o leste, eles fariam o próprio caminho rumo ao sul.

“Nós seguiremos para os Penhascos Sangrentos”, disse ela, enquanto Erath observava o comboio desaparecer lentamente no horizonte à medida que a corrente inquebrável de guerreiros noxianos marchava para o litoral.

“O que tem lá?”, perguntou.

“A questão não é o quê”, retrucou a ferreira, “mas quem está lá.”

Erath assentiu, lembrando-se de que Tifalenji já havia comentado sobre outra pessoa antes. Ele olhou para os suprimentos extras nas costas de Talz. “E quem é?”

“Uma k’naad metida a besta”, zombou Arrel, vertendo a água de um cantil sobre a palma da mão para servir aos cães. As orelhas do Primeiro levantaram ao ouvir a palavra. Por mais que Erath jamais a tivesse ouvido, era capaz de aproximar um significado. Arrel olhou com desdém para Tifalenji. “Isso aqui é uma perda de tempo. Não precisamos dela.”

“Deixe que eu decido isso,” respondeu a ferreira rúnica, sem titubear. Ela olhou para Erath e suspirou por entre os dentes. “O nome dela é Marit, escudeiro.”

“Ela tende a aproveitar qualquer oportunidade possível para mencionar que fazia parte da nobreza antes da revolução”, resmungou Arrel. “A família dela perdeu todo o patrimônio e poder que tinha, mas ela não parece entender isso muito bem.”

Arrel esquadrinhou o ambiente com os olhos. “Ela sempre desembestava a falar das terras maravilhosas da família…” Arrel balançou a cabeça. “Que merda de lugar.”

“Ela é uma guerreira de elite”, rebateu Tifalenji. “Calejada e com experiência em batalha. Ela será um trunfo para nós, e fim de papo.”


A estrada rumo aos Penhascos Sangrentos passava por planícies áridas e colinas baixas e ensolaradas. O calor era novidade para Erath, muito diferente da friaca enevoada de Dalamor. Ele tomou cuidado para porcionar o que restava de água enquanto viajavam sob um sol escaldante e céus límpidos e devastadoramente azuis.

Arrel interrompeu o passo de repente, e Erath deu tapinhas no flanco de Talz para fazê-lo parar enquanto observava a rastreadora. Ela se ajoelhou e pressionou a palma da mão contra a terra. “Alguma coisa está perto.”

Montada na garupa de Talz, a ferreira rúnica sacou uma luneta do cinto, expandiu o tubo de cobre e pôs-se a olhar através dele. “Cavaleiros”, confirmou ela. “E não são de Noxus.”

Olhando pela luneta, Erath viu duas silhuetas minúsculas subindo o pico de uma colina. Ele só conseguiu distinguir que estavam a cavalo. Numa rápida flexão do pulso, sua mão caiu no cabo de couro do pequeno alfanje em seu quadril. Após tanto tempo na estrada, um dia de monotonia após o outro, a ideia de um pouquinho de adrenalina era mais do que bem-vinda.

“Segundo, Terceiro”, chamou Arrel, ao que os dois cães-dragão deram um salto à frente.

“Espere”, disse Tifalenji, agora investigando o que havia atrás deles. “Não são só eles.”

Erath se virou e viu mais silhuetas surgirem atrás deles, seguidas por mais outras de todos os lados. Ele mal teve tempo de ouvir o som cortante do berrante antes que os cavaleiros descessem as colinas em direção ao grupo.

“Saqueadores.” Tifalenji puxou a espada rúnica da bainha em suas costas. “Fiquem em círculo. Agora.”

O solo começou a tremer; de leve a princípio, mas crescendo cada vez mais até estourar em um grande sismo conforme os cavaleiros avançavam. Erath se virou para Talz, buscando alguma forma de manter o basilisco preso ao chão caso entrasse em pânico, e recuou ao levar um bofetão de Tifalenji na cabeça.

Foco, garoto!”, ralhou ela.

Erath deixou Talz de lado, sacou o alfanje e o segurou firme. Ele se distanciou de Arrel e da ferreira, tentando cobrir seu terço do pequeno perímetro que formaram. Os saqueadores agora estavam em plena vista, suas armaduras leves por baixo de capuzes ondulantes, e as bandeiras-turquesa ondulando em cascatas das pontas das lanças farpadas.

Os noxianos se prepararam para a investida. As runas na espada de Tifalenji flamejaram em tons de esmeralda, os cães de Arrel uivaram.

No último segundo, os cavalos se afastaram para os lados, correndo em círculo ao redor deles. A poeira levantada pelos cascos de ferro se ergueu em uma espessa cortina giratória que os separava do resto do mundo. Erath mal conseguia enxergar as silhuetas que corriam em volta deles.

O ar sibilou, Erath saltou para o lado — uma lança havia se fincado onde ele estava parado. Arrel rosnou um comando, e um dos cães saltou em direção à poeira. Tifalenji começou a entoar um cântico, as palavras ferindo os ouvidos de Erath conforme arabescos em fogo verde tremulavam ao longo da lâmina.

Say-RAH-dech!”, rugiu ela, desferindo um golpe cortante com a lâmina e enviando uma centelha jade contra a cortina.

Erath não sabia dizer se ela acertou alguma coisa. Se o cão de Arrel ainda estava vivo. O caos tomava conta de tudo. Barulho. Um gemido trêmulo que dividiu o ar. O ciclone que os enjaulava estremeceu. Erath ouviu o som de algo se rasgando e saltou para trás quando um jato de sangue escuro irrompeu da parede de poeira, cobrindo seu rosto e peito em tons vivos carmesim.

Ele permaneceu imóvel. Vá ajudá-las, imbecil.

A poeira começou a se assentar, e Erath juntou coragem. Ele se concentrou em uma sombra diretamente à sua frente e avançou com tudo, o alfanje erguido em mãos e o grito mortífero de sua tribo nos lábios. Ele atravessou correndo os grãos cortantes e, quando abriu os olhos, descobriu que não estava enfrentando um cavalo.

Fosse o que fosse, a guerreira montada nele apontou uma glaive contra sua garganta no mesmo instante.

“Ora, ora”, rebentou uma voz de tom suave e educado. “Minha corcela aqui já lanchou bem hoje, mas sempre tem espaço para a sobremesa.”

A mandíbula de Erath foi erguida pela ponta da lança, e seus olhos seguiram em direção à portadora. Era uma mulher alta e esbelta, seu rosto guardado por trás de uma máscara de ferro e couro preto. Uma bandeira noxiana pendia de sua glaive, e um segundo estandarte rasgado de uma facção desconhecida a Erath, estava reunido em volta de seus ombros como uma capa.

Ela montava confiante em uma criatura bípede e ágil com músculos esguios e cauda agitada; o amálgama entre um lagarto e um pássaro. Sua feição feroz contava com as presas manchadas de sangue expostas em desafio. A poeira agora havia assentado, revelando os saqueadores mortos ao seu redor em variedades sortidas de desmembramento.

Erath sentiu o olhar penetrante da máscara estudá-lo. Ela apertava os olhos de satisfação enquanto afundava a glaive no cadáver de um saqueador, cortando a bandeira dele com um movimento do pulso. Só então ele percebeu os outros corpos suspensos sobre a montaria. Tifalenji e Arrel se aproximaram.

“Arrel, sua k’naad antipática!”, exclamou a noxiana, galopando com aprumo em direção ao grupo. “De que buraco te deixaram sair? Até onde eu sabia, você estava chafurdando atrás de recompensas naquele chiqueiro lá em Zaun.” Ela estremeceu de maneira teatral. “Parece dente faltando, aquela cidade. Um nojo!”

“Marit”, disse Arrel, sua voz livre de emoções. Erath virou o olhar para a rastreadora. O cumprimento parecia frio até mesmo para Arrel, e ele reparou que havia algo diferente no reflexo acinzentado de seus olhos.

“E quem são esses seus amigos aqui?” Marit encarou Erath e Tifalenji. “Difícil acreditar que vocês estavam só de passagem.”

“Saudações”, disse Tifalenji, a cabeça descendo em uma reverência. “Seus instintos não falharam. Viemos a mando do império. Aqui está o mandado.”

A ferreira rúnica entregou um rolo para Marit. A mulher mascarada desenrolou-o, seus olhos negros subindo para contemplar Tifalenji diversas vezes durante a leitura.

Sob pena de morte!“, interpretou Marit de maneira afetada antes de devolver o rolo a Tifalenji. “Bom, parece estar tudo em ordem. Quando partimos?”

“Agora”, respondeu Tifalenji.

“Nada mais justo.” Marit fitou Erath. “Um criado, é?”

Ele hesitou. “Err… Na verdade, eu sou escud…”

“Pode me chamar de ‘minha senhora’, criado.” Marit apontou para sua montaria. “E esta corcela aqui é meu maior orgulho: Senhora Henrietta Eliza Vaspaisiana IV de Orogontis.” Ela olhou para Erath, semicerrando os olhos. “Mas você tem cara de ser um tantinho burro, então acho que ‘Henrietta’ vai ter que bastar.”

Henrietta jogou o pescoço longo e musculoso na direção de Erath e soltou um silvo trepidante por baixo das presas reluzentes.

“O que ela come?”, indagou Erath.

“Gente que me aborrece”, respondeu Marit antes de dirigir-se ao seu pavilhão. “Cuide das necessidades dela e fale só quando te pedirem, homenzinho.”

Erath abriu a boca para retrucar, mas Henrietta silvou novamente, fazendo-o engolir a raiva.

Juntos, conseguiram trabalhar rapidamente, apanhando o acampamento de Marit para amarrá-lo a Talz. O basilisco aguentou o peso com facilidade, sequer parecendo notar a carga adicional. Erath começava a entender como um espécime adulto seria capaz de derrubar fortificações.

“Tudo pronto para partirmos?”, perguntou a ferreira.

Erath assentiu, e ela sinalizou para se moverem. Marit subiu a sela de couro polido na garupa de Henrietta, amarrando a bandeira noxiana à glaive e o segundo estandarte em volta do pescoço como uma capa.

“Vamos, Talz!”, chamou Erath, puxando o basilisco do campo onde bebia água e pastava na grama macia.

Marit inclinou a cabeça para o lado. “Espera aí. Ele deu nome pro animal de carga?

“Pois é”, disse Arrel.

Marit bufou em deboche. “Bom, acho que as lágrimas desse imbecil vão servir para temperar a carne se a gente precisar fazer filé do bicho no caminho.”

“Aqueles cavaleiros”, começou Tifalenji, balançando a cabeça na direção onde observar

“Sei.” Marit se inclinou da sela. “O que tem eles?”

“Não fica preocupada de eles voltarem à atividade enquanto estiver fora?”

Marit balançou a mão. “Bobagem. Estas terras ancestrais são minhas. Se decidirem cuidar bem dela na minha ausência, ótimo. Senão, é só eu matar todo mundo quando voltar. Preocupação demais dá rugas.”


Após alguns dias de viagem, eles chegaram aos Penhascos Sangrentos. A ferreira manteve o passo célere, fazendo o grupo dormir em turnos ao longo do caminho e parando apenas quando absolutamente necessário. Erath a via todas as noites, fosse na estrada ou no acampamento, sentada longe dos outros, olhos voltados para a lua.

Eles contornaram o leste através de uma cordilheira de montes baixos, alcançando o porto de escala de Drakkengate à primeira luz da aurora. Erath achou as docas de lá tão movimentadas quanto qualquer outra, mergulhadas no mesmo caos ordenado de mobilização armada, como parecia ser o caso em toda a costa leste de Noxus. Milhares de guerreiros e os incontáveis armeiros, cozinheiros, construtores, reparadores, sacerdotes e forjadores que os serviam, todos enfiados no porão de grandes navios de tropas prontos para içar as imensas velas vermelhas e descer os remos na água para partir rumo ao alto mar.

Erath pôs-se a fuçar atrás de suprimentos assim que chegaram. Embora os navios contassem com provisões suficientes para os soldados e animais comuns para a travessia, o grupo acumulou uma pequena coleção de criaturas exóticas pelas quais ele agora era responsável. Para a sorte de Erath, o mandado que a ferreira rúnica carregava consigo os concedia preferência nas filas congestionadas e falava mais alto do que qualquer contramestre obstinado. Antes do meio-dia, já estavam prontos para embarcar.

“Ali”, disse Tifalenji, apontando para o cais. “É o nosso navio. O Atoniad.”

Os olhos de Erath pousaram sobre a embarcação. O Atoniad era um cargueiro de tropas cuja estética não deixava dúvidas sobre a procedência noxiana, desde as linhas marcadas e o revestimento de ferro escuro, até as velas vermelhas firmemente amarradas, ávidas pelo momento em que serão soltas e carregarão o navio adiante pelas ondas. O maior barco que ele já havia embarcado era o esquife que levara sua tribo ao Bastião Imortal, e compará-lo ao Atoniad era como colocar um palito de dente ao lado de um machado de guerra.

Homens e mulheres já subiam as pranchas da embarcação em filas, e as rampas mais amplas admitiam os animais e paletes de ferramentas, pedras e madeira.

“Não estou vendo muitos soldados”, comentou Erath.

“Vamos acompanhar basicamente operários e pedreiros nesta viagem”, esclareceu Tifalenji. “O Atoniad vai para Fae’lor, não para as grandes ilhas.”

“Fae’lor?” Erath olhou para a ferreira. “Isso quer dizer que vamos para a grande fortaleza?”

“O que sobrou dela”, murmurou Arrel.

A notícia da tragédia em Fae’lor havia chegado até Dalamor. No ocasião, Erath se reuniu com sua tribo em volta de uma fogueira enquanto os xamãs contavam como um bando de ionianos covardes havia atacado a fortaleza noxiana de lá. Desesperados, eles liberaram uma magia que ia muito além do controle deles, devastando suas defesas.

Uma quinzena mais tarde, a tribo recebera o chamado para levar suas lanças até a capital.

Todas as lanças.

“Vamos embarcar”, disse Tifalenji. Ela apontou para os pontos de acesso mais amplos. “Leve as feras e embarque com elas, escudeiro”.

Erath baixou a cabeça e olhou para Arrel. “Levo os cães também?”

Os quatro cães-dragão encararam Erath. De alguma forma, conseguiram rosnar para ele em uníssono, exatamente no mesmo tom. Um coro de mandíbulas furiosas.

“Eles continuam comigo.” Arrel estalou um dedo, e a matilha se calou.

Erath juntou as rédeas de Talz. Marit entregou as rédeas de Henrietta, oferecendo à corcela um último afago no queixo.

“Tome conta para que minha garota tenha as próprias acomodações”, disse, enquanto Erath conduzia os animais para o navio. “Se colocar alguma coisa junto com ela… não vai demorar para ficar sozinha de novo.”


O ar livre estava frio e cortante, com borrifos de sal. Havia doze outros navios na frota do Atoniad, as velas vermelhas cheias e esticadas por uma brisa generosa que, pelo menos por enquanto, cuidava do dever dos remadores abaixo do convés. Para passar o tédio como só a fofoca faz, corria entre os soldados o boato de que haviam passado por rotas de piratas em algum momento da noite anterior, embora poucos pudessem imaginar um corsário tolo o bastante para tentar a sorte contra uma dúzia de navios de guerra imperiais com assassinos loucos por uma boa guerra de proa a popa.

Erath virou o olhar da frota quando Arrel se aproximou, quase cometendo o erro de bater continência antes de se lembrar de que fora instruído a não fazê-lo. Arrel ignorou o constrangimento. Ela olhou para baixo e reparou na firmeza com a qual o garoto se segurava na balaustrada. “Primeira travessia?”

O escudeiro assentiu. “Dizem que vão ser três dias no mar e depois mais três até chegarmos a Fae’lor.” Ele passou a mão pelo ciclo infinito de ondas cinzentas que se estendiam até o horizonte, interrompidas apenas pelos contornos envoltos em sal dos outros navios de guerra. “Nem sabia que existia tanta água.”

Arrel grunhiu, sem oferecer espaço para conversa.

“Você esteve na guerra “, disse Erath, apreensivo. “Ionia… Como é lá?”

Arrel não respondeu de imediato. A rastreadora fitava o oceano, a mão descendo para afagar a pelagem lustrosa e espessa por trás da máscara óssea do Segundo. Ela respirou devagar. “É um lugar de beleza mórbida.”

“Ionia não passa de uma rapace gigantesca com a cabeça decepada.” Marit apareceu por trás dos dois, avançando aos pulos para relaxar contra o parapeito. “Decapitamos ela da última vez, e agora tá fazendo uma bagunça danada porque é burra demais pra perceber que morreu”.

“Eu já cacei aves de rapina”, disse Arrel. “E, mesmo sem cabeça, elas ainda conseguem te estripar.”

“Então, vai ser guerra?” perguntou Erath. “Mais uma guerra com Ionia?”

Marit deu de ombros. “Não faço a mínima. Mas o Grande General mandou muitas botas oceano afora só para sacudir umas espadas.” Só espero que desta vez ele tenha a envergadura moral de deixar a gente terminar o trabalho.”

Arrel se afastou, e Erath voltou a observar a extensão inconcebível das ondas suaves. “Como se chama o oceano daqui?” perguntou.

“Quem liga pro nome?” Marit se inclinou sobre o ombro de Erath antes de sair em rompante. “É nosso.”


Erath nunca antes sentira tanta gratidão ao ver terra firme.

A fortaleza de Fae’lor crescia em tamanho e definição no horizonte diante deles. O Atoniad fez ótimo tempo na viagem até a ilha, mas Erath descobriu que estava muito longe de estar apto a viver ao mar. O movimento arquejante e sinuoso do navio de guerra roubou muitas refeições de seu estômago, oferecidas ao oceano em tributos eméticos de náusea abrupta. Tudo estava encharcado, coberto por uma crosta crepitante de sal que queimava sua pele.

Ele ficou abaixo do convés durante a maior parte da travessia, tomando conta para que as criaturas sob seus cuidados pudessem tolerá-la com o maior conforto possível. Talz parecia bem; fazia refeições regulares e passava a maior parte do tempo dormindo no aprisco. A Senhora Henrietta, no entanto, exigiu cuidados mais assíduos. A corcela de Marit era um animal ágil e enérgico, e seu descontentamento com os limites do navio era bem claro. Para evitar que ele mesmo virasse petisco, Erath redobrou a atenção durante as refeições e mal via a hora de tirar Henrietta do Atoniad para que ela pudesse esticar um pouco as pernas.

Quando os batedores gritaram por terra da proa do navio, Erath subiu o convés correndo para ver. O convés superior estava repleto de noxianos ansiosos para apreciar a vista. No começo, não passava de uma mancha no horizonte, ligeiramente mais definida que a faixa nebulosa onde a água encontrava o céu. Mas quanto mais perto chegavam, mais nítida ela se tornava. Em torno da ilha, Erath vislumbrou o que pareciam ser bancos de nevoeiro de coloração marsala, que, mais de perto, se tornava vermelha.

Fae’lor estava cercada por navios noxianos.

Havia círculos concêntricos de embarcações rodeando a ilha, e barcos de defesa agora se moviam sem parar. O Atoniad foi detido pelas embarcações de patrulha periféricas; um par de fragatas se enganchou na embarcação e trouxe a bordo esquadras de soldados navais.

Erath reparou o aspecto severo com que inspecionavam o cargueiro, as armas em punho enquanto examinavam o mandado e o manifesto do capitão. Eles vasculharam todos os conveses, e o escudeiro observou um trio de magos sanguinos estudar todos os soldados a bordo, entoando cânticos a meia voz enquanto olhavam fundo nos olhos de cada homem e mulher.

“O que eles estão procurando, senhora?”, perguntou a Tifalenji.

“Sinais de subterfúgios”, respondeu a ferreira rúnica. “Maracutaias. Magia selvagem.”

Para Erath, tudo isso era muito estranho. “Mas somos todos soldados noxianos em um navio imperial. Não é muita paranoia?

“Paciência, garoto”, disse Tifalenji. “Quando atracarmos em Fae’lor, você entenderá.”

Depois de percorrerem cada centímetro do Atoniad, um contingente de soldados permaneceu a bordo, os outros retornaram às fragatas, e o navio recebeu autorização para avançar ao próximo anel do bloqueio. As inspeções e verificações se repetiam a cada ponto de controle, e os soldados encarregados mudavam a cada vez que o Atoniad era parado. Erath fora cutucado, apalpado e revistado tantas vezes, que, quando finalmente chegaram ao porto, não sabia mais se algum dos companheiros confiava nele ou em qualquer outra pessoa.

Foi só quando olhou para Fae’lor mais de perto que entendeu.

A fortaleza havia sido arrasada. Ele conseguia distinguir apenas vislumbres das grandes muralhas que outrora formavam seu centro. As fortificações anteriormente impenetráveis foram reduzidas a escombros despedaçados que se erguiam do chão como dentes apodrecidos e quebrados. Mas a extensão da devastação ia muito além das torres e muralhas. Até mesmo a terra fora escavada, rasgada e arrancada, com todas as características de uma calamidade natural aterradora.

Atoniad se aproximou do atracadouro e, uma vez parado, noxianos puseram-se a trabalhar a bordo e no cais. Os artesãos correram para os postos designados, enquanto matérias-primas e suprimentos eram descarregados e levados para terra firme. Erath foi para debaixo do convés, buscando na tarefa de tirar Talz e Henrietta do Atoniad alguma distração do choque da ilha.

Destacando-se dos rebanhos de gado e outros animais de carga mais mundanos, Erath conduziu as bestas por uma rampa larga que se estendia do porão do navio. Esperando a triagem completa daqueles à frente para entrar em Fae’lor, ele observou mesmerizado as tripulações descerem como um enxame de formigas raivosas sobre os escombros de outro navio de guerra.

Grandes guinchos e correntes eram usados para puxar os destroços do mar, um pedaço de cada vez. Os grupos corriam para dentro e voltavam arrastando as formas pálidas e inchadas dos afogados. Ele pesava mais que o dobro do Atoniad, e seu casco havia sido partido em dois, como um graveto que se prensa contra o joelho.

Que tipo de poder teria feito isso?

Erath lembrou-se de quando esteve sob a sombra do Bastião Imortal. Da convicção que sentiu ao ver o império marchar para a guerra de que não havia nada naquele mundo que pudesse contra eles.

Pela primeira vez, vendo o que havia acontecido com Fae’lor com os próprios olhos, ele sentiu a incerteza se alastrar em seu coração.

Finalmente chegando ao fim da rampa, ele deixou a madeira encharcada para caminhar sobre rochas lascadas. O ar estava denso, úmido e empoeirado. Cheirava a especiarias e aromas que Erath não conseguia discernir, e ele finalmente percebeu que estava .

Ionia.

Erath não reparou no tempo que ficou lá parado nem em como o couro das rédeas de Henrietta deslizava por entre seus dedos. Quando deu por si, a montaria de Marit já estava trotando em direção ao acampamento.

“Ei!” O escudeiro começou a persegui-la, até que se lembrou de Talz. “Fica“, avisou ele, puxando a faca e usando-a para prender as rédeas do basilisco no chão antes de correr atrás de Henrietta.

“Epa, epa!”, exclamou, tentando chamar a sauriana errante enquanto ela andava por entre uma linha de barracas. Ela parou de repente, o pescoço comprido girando na direção de Erath. Henrietta soltou um silvo através do metal reluzente de seu cabresto, que Marit gostava de dizer que era “a bijuteria dela”. Cobrindo o rosto e o crânio, era ao mesmo tempo um elmo protetor e uma arma, retocando as presas afiadas com lâminas de ferro afiadas.

“Calma, minha senhora”, persuadiu Erath, seus braços abertos enquanto diminuía devagar e sempre a distância entre eles. “Calminha, vai.”

“Controla essa coisa!”, berrou uma voz de um grupo próximo. Henrietta e o escudeiro fuzilaram o soldado com o olhar.

“Ela ficou trancada em um navio por dias”, vociferou Erath. Ele se aproveitou da distração de Henrietta e agarrou suas rédeas, envolvendo o couro em torno do antebraço. “Ela está precisando de exercício. Quer que seja você? Então fica na sua!

Erath encarou os soldados até que se dispersassem, demorando algum tempo para se dar conta de que a ferreira estava chamando seu nome. Ele voltou para buscar Talz e se dirigiu ao lugar onde Tifalenji esperava com Arrel e Marit, controlando o movimento das duas bestas pelas rédeas, puxando o basilisco para frente e mantendo Henrietta para trás. Quando ele se aproximou, reparou que havia certo atrito entre as colegas da ferreira, uma tensão nas posturas que não existia antes.

“Pressa para quê, não é mesmo?”, zombou Marit, arrancando as rédeas de Henrietta das mãos de Erath. Arrel se agachou, os dedos roçando os escombros espalhados pelo chão enquanto seus cães de caça a orbitavam.

“Isso foi magia antiga”, murmurou a rastreadora. “Algo que estava adormecido e agora acordou.”

“E onde você aprendeu a sentir mágica?”, questionou Marit, a sobrancelha levantada.

Aqui mesmo“, respondeu Arrel, quase sussurrando.

“Ê, laiá”, retrucou Marit. Ela olhou para Tifalenji com expectativa. “Então?”

“O último membro da nossa expedição está aqui em Fae’lor”, respondeu a ferreira. “Precisamos dar um jeito de encontrá-la.”

“É só procurar a arena mais próxima”, sugeriu Arrel. “Onde tem cheiro de sangue, lá está ela.”

Erath assentiu, quase acostumado a entender tanto quanto possível das inferências e palavras enigmáticas. “Ela também tem um bicho para eu cuidar?”

“Ah, criado, seu tolinho.” Marit sacudiu a cabeça. “Teneff? Ela é o bicho.


Arrel tinha razão. Fae’lor estava sendo reconstruída, mas ainda era um campo militar noxiano. Eles seguiram o zumbido do aço, mais agudo do que barulho ritmado dos martelos nas forjas, indo parar aonde os guerreiros da ilha treinavam.

Havia uma série de fossos rasos escavados além das barracas, cada um ocupado por dois duelistas. Com espadas embotadas, bastões de madeira ou as próprias mãos, todos treinavam, mas um poço em particular atraíra uma multidão. O grupo precisou abrir caminho através dos espectadores para enxergar o poço.

Dois noxianos em armaduras completas orbitavam um ao outro. Um empunhava uma espada de treinamento e um broquel; a outra, um gancho de ferro pesado afixado em um pedaço de corrente. Os soldados que assistiam aplaudiam a dupla, que calculava a distância e trocava fintas entre si.

O espadachim percebeu uma abertura. Ele se lançou para frente, jogando o peso do escudo contra o rosto do oponente e desferindo um golpe na altura dos joelhos com a espada. A adversária deu um salto para trás, esquivando-se por um triz da lâmina, e ao mesmo tempo arremessou a corrente, prendendo o braço do escudo do homem com o gancho. Ela jogou o braço para baixo, puxando o espadachim para uma violenta cabeçada. Ele afundou na lama feito pedra, o sangue borrifando do nariz arruinado.

“Para mim, isso tem cara de vitória”, cantou ela, e a plateia irrompeu em palmas

“Isso foi golpe sujo, Teneff”, rosnou o espadachim, esfregando o sangue do nariz amassado com uma risada perversa. “Que tal uma melhor de três? Ainda não terminei com você.”

“Nosso trato foi melhor de uma“, repetiu Teneff, intransigente. “Precisamos de você na fileira, Cestus.”

O espadachim soltou um palavrão e se levantou, arrastando-se para fora do fosso. Enquanto enrolava a corrente no antebraço, Teneff olhou para cima e se deparou com Erath e companhia olhando fixamente para ela. Os olhos dela se arregalaram de confusão. “Marit? Arrel?”

Marit soltou uma risada. “Só aí rachando uns cocos, hein, Ten?”

Teneff escarrou uma bolota de catarro no chão. “Tem gente que nunca parou”, respondeu ela com um sorriso, segurando a mão que Arrel ofereceu para puxá-la para fora do fosso.

Erath se afastou para abrir espaço enquanto ela subia. Teneff tinha todas as qualidades de uma quebra-escudos: uma guerreira da fileira que lidava com os inimigos ao alcance do braço. Cicatrizes se entrecruzavam em toda superfície de sua carne que não fosse envolta em couro e ferro, histórias de sangue e honra gravadas ao longo de uma vida inteira de batalhas. Ele se perguntou quantas das cicatrizes que ela ostentava foram conquistadas aqui em Ionia.

“A última vez que vi vocês duas”, comentou Teneff, “estávamos todas…”

“Aqui”, completou Marit. O silêncio reinou entre as guerreiras por alguns instantes. Havia um vínculo entre elas, isso era claro para Erath. Mas havia também um vazio; algo não dito, ou até mesmo ausente. Ele viveu perto de soldados tempo suficiente para saber que era melhor deixar por isso mesmo.

“Bom”, disse Teneff, quebrando o silêncio. “Se todos vocês vieram de Valoran, já deve fazer dias que só comem gororoba de navio. Nosso cozinheiro não é dos melhores, mas é bem melhor do que aquele troço. Vamos.”

O sol começara a afundar no horizonte, tingindo o céu em faixas rajadas de ouro, laranja e escarlate, descendo aos poucos até o índigo. O grupo atravessou a barraca do refeitório e sentou-se ao redor de uma fogueira, o ar começando a esfriar. As mulheres conversavam entre si sobre o que haviam feito desde o último momento em que serviram uma ao lado da outra e sobre os velhos ferimentos aos quais resistiram juntas. Erath, por sua vez, permaneceu calado e apenas ouvia.

“E você, garoto?”, perguntou Teneff, sua atenção se voltando para o escudeiro. “Já derramou sangue? Trocou uns golpes no seu principado?”

Erath se endireitou. “Já servi meu principado, sim.”

O aspecto dela se tornou sério e analítico. “Onde?”

“Era um conflito na fronteira a oeste das planícies de Dalamor”, respondeu Erath. “Foi tudo bem rápido e nada muito sério.” Ele olhou para cada uma delas e reparou que a resposta não tinha convencido. Não se tratava da empolgação ingênua dos civis, loucos para confirmar alguma impressão fantasiosa de como era lutar em uma guerra da qual jamais participariam. Estas eram veteranas; guerreiras que podiam vir a lutar ao lado nas fileiras e que precisavam saber com o que ele lidou e como se saiu.

“Era uma expansão das águas rasas de um vale fértil”, continuou ele. “Eram fazendeiros; sabiam cuidar de si, mas foram criados para cultivar o solo, não pintá-lo de vermelho. Assim que pegamos o ritmo, nós conseguimos cercá-los e surgimos à direita deles em dois tempos.. Acabamos com a formação deles bem rápido.

“Sobrou algum deles depois”, indagou Arrel, “para arar aquele solo?

Erath sacudiu a cabeça. “Bem que tentamos. Quando chegamos a um consenso com os anciãos, trouxemos outros para ajudá-los a trabalhar. A colheita precisava ser plantada. Não dava tempo de esperar.”

Marit inclinou a cabeça. “E você regou aquele solo com o sangue de quantos fazendeiros, hein?”

“Deixe o garoto em paz”, disse Tifalenji.

“Eu estava na retaguarda.” Erath deu de ombros. “Quando a minha fileira entrou no conflito, ele já tinha acabado. Basicamente, tudo fizemos foi dar o golpe de misericórdia em quem já estava com um pé na cova, e cavar essas covas.”

A memória surgiu na mente de Erath sem pedir licença. Caminhar ao longo do vestígios de uma muralha de escudos caídos e sentir alguém segurar seu tornozelo. Olhar para baixo e ver um homem que levara uma lança no abdome grunhindo para ele com palavras que ele não conhecia, mas cuja súplica entendera perfeitamente.

Posicionar a ponta da lança na garganta do homem. Ele inclinando a cabeça para trás, em plena resignação.

“Quando foi isso?” perguntou Teneff.

“Primavera passada”, respondeu Erath.

“Mas você mal tinha saído das fraldas!” Marit exclamou.

“Já falei para deixá-lo em paz”, rosnou a ferreira. “Ele está aqui para cuidar dos animais, nada mais que isso.”

Marit riu, os olhos semicerrados de tão entretida. Teneff fitou Tifalenji. “E você, moldadora de runas? Onde serviu?”

“Longe daqui”, respondeu ela, e o cintilar estranho de seus olhos convenceu Erath de que esse seria o máximo que ouviriam de suas experiências.


Dormir é uma experiência gloriosa para um soldado. Todo período de descanso ininterrupto é valioso, equiparável a uma barriga cheia ou um par de botas feitas sob medida. Erath havia tentado se adaptar aos ires e vires intermináveis do Atoniad, mas o sono só chegava a ele em parcelas. De volta à terra firme, com os deveres cumpridos e a capa esticada em um trecho plano e seco perto dos currais, o escudeiro reclinou a cabeça sobre a mochila, deliciando-se com a mera ideia de poder dormir durante as horas que precediam o início das alimentações matinais.

A impressão dele foi de mal ter tido tempo para piscar antes de ouvir a voz que dirigia-se a ele, fria e afiada como a ponta da faca que sentia contra o pescoço.

“Faça o que eu disser, em silêncio, ou corto sua garganta.”

Erath abriu os olhos. A luz do amanhecer ainda estava a horas de distância, e a lua brilhava em tons de prata como uma foice quando ele se levantou. Sua faca não estava mais consigo. Eles caminhavam, Erath tomando o cuidado de manter os movimentos lentos e as mãos à vista enquanto era arrastado até a beira do acampamento.

Um amontoado de figuras estava à frente. Ele ouviu o rosnado baixo de cães enquanto se aproximavam, e as silhuetas se materializaram em Arrel e Marit, a figura ajoelhada da ferreira entre elas.

“O que veio fazer em Ionia, garoto?”, exigiu a voz enquanto Erath era posto de joelhos ao lado de Tifalenji. Ele estava alerta o bastante para reconhecer que a voz atrás dele pertencia a Teneff.

“Eu…”

“Ele não sabe de nada”, disse Tifalenji calmamente. Teneff levantou a faca da garganta de Erath e virou-a contra a ferreira.

“E o que lá sabemos sobre você, hein?” Teneff voltou o olhar para as outras veteranas. “Documentos podem ser falsificados, e mandados, confeccionados.”

“Meu mandado é bem genuíno”, disse Tifalenji, estranhamente calma aos olhos de Erath, “assim como o poder que você está querendo desafiar.”

Marit inclinou a cabeça. “O garoto pelo menos sabe quem você diz estar caçando? Quem você quer que apanhemos?”

“Ele sabe o que foi necessário até agora e nada mais.”

“Então talvez seja a hora de mudar isso.” Teneff olhou de cima para Erath. “Você está procurando um fantasma. Uma guerreira que morreu com honra como heroína de Noxus. Nossa camarada.” Ela gesticulou para Arrel e Marit. “Nossa irmã!”

“Ela está viva”, disse a ferreira.

“Mentirosa!” rosnou Tenneff. “Me dê um motivo que seja para acreditar na sua palavra e não matar você aqui e agora.”

“Porque os poderes aos quais eu respondo não cometem erros. Se dizem que ela está viva, então ela está. Todas vocês serviram ao lado dela em nome do império. Agora, o império ordena que a encontremos e a tragamos de volta a eles. Minha autoridade é maior que a das guarnições daqui; elas não têm ciência de nossa missão e nem devem.”

“Que prova você tem disso tudo?” exigiu Marit.

“A espada dela”, suspirou Tifalenji. As guerreiras enrijeceram.

“O que tem ela?”, sibilou Teneff.

“Vocês sabiam que ela tentou destruí-la?” perguntou a ferreira. Ela respirou fundo, seus olhos brilhando em pulsos esmeralda. “Ela falhou, e a magia que a infundiu ganiu com a profanação. Meus mestres ouviram e viram a responsável tão claramente como se estivessem no mesmo cômodo. É por isso que sabemos.”

“Se ela está mesmo viva”, disse Teneff, “então é uma desertora, infratora do mesmo crime que você agora pede que todas cometamos… cuja punição é a morte.”

Tifalenji encarou o olhar fulminante de Teneff. “Cumpram esta missão, ajudem-me a rastreá-la e buscá-la para julgamento em Noxus, e vocês não precisarão lidar com represália nenhuma. Busquem dentro de si tudo que já sacrificaram por este lugar, e digam se a traição dela não machuca. Digam se dariam mesmo as costas à justiça e ao esclarecimento de como ela viveu durante os últimos anos.

Um silêncio sombrio pairou sobre o sarau. A tensão irradiava de Teneff, Marit e Arrell, a ameaça de violência equilibrada no comprimento de uma faca. Erath lutava contra seus nervos, contra a fúria latente desses segredos e contra a ideia de morrer aqui em Fae’lor sem nem saber o motivo.

“Nós vamos com você.”

Todos os olhos se voltaram para Arrel, que manifestou as primeiras palavras desde que Erath havia se juntado a elas. Marit se voltou contra a rastreadora. “Você fala por todo mundo agora?”

“Falo”, respondeu Arrel categoricamente. Ela pigarreou, o mero esforço soando quase doloroso para Erath. “Porque somos soldadas, todas nós. E soldadas cumprem com seu dever. Mais do que isso, ela era uma irmã para nós. E irmãs merecem respostas.”

Marit olhou para Arrel. Seus olhos escuros latejavam de intensidade, mas enfim cedeu. “Respostas”, repetiu ela.

Teneff rangeu os dentes, buscando o olhar de cada uma das outras veteranas, que assentiam solenes. Ela levou a ferreira aos pés pela gola, mas não a soltou. “No menor indício de que você faltou com a verdade aqui conosco, eu decepo sua cabeça, bruxa.”

“Falo apenas a verdade”, respondeu Tifalenji. “Ainda mais agora que não podemos postergar mais do que já fizemos. Temos de atravessar o coração das Primeiras Terras, e precisamos fazê-lo agora.”

Tifalenji olhou para Erath agora pela primeira vez. “O que eu disse a elas carrega o mesmo valor para você, escudeiro. Junte-se a nós nesse caminho, ofereça seus serviços, e você será recompensado.”

“Sou um guerreiro leal de Noxus”, proclamou Erath. “Cumpro meu dever e não dependo de promessas duvidosas nem da ameaça de uma garganta cortada para isso. O império pede que eu sirva a você, então é isso que farei. Só tenho uma pergunta.”

Tifalenji fitou Erath com seriedade. “Diga.”

“Quem é essa pessoa?”, indagou Erath. “Quem estamos caçando?”

A ferreira rúnica sacou a espada. “Pode ser que ela se chame de outra forma agora, algum pseudônimo adotado para a nova vida nas Primeiras Terras.”

As runas que Erath a vira insculpir na lâmina saltaram do ferro rumo ao céu, como uma trilha que os conduziria à terra mística e sombria que os aguardava.

“Mas, em Noxus, seu nome era Riven.”

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