Pantera Negra: Wakanda Para Sempre | Crítica

O retorno do Pantera com uma aventura política e social

Análise sobre o filme “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”, da Walt Disney Pictures (a convite da própria), aqui no site Cebola Verde.

Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (Black Panther: Wakanda Forever)

Estreia: 10 de novembro de 2022 – 2h 42min

Direção: Ryan Coogler

Elenco: Angela Bassett, Letitia Wright, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Tenoch Huerta Mejía, Dominique Thorne

Distribuidora: Walt Disney Pictures

Gênero: Ação, Fantasia, Aventura

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O meu (e seu) primeiro super-herói protagonista negro dos cinemas está morto? Não.

A primeira participação do novo Pantera Negra nos cinemas aconteceu em um embate pra lá de épico contra o Capitão América e Soldado Invernal, no filme “Capitão América: Guerra Civil” (2016). E claro, o primeiro vislumbre do ator norte-americano Chadwick Boseman como personagem dos quadrinhos Marvel, T’Challa. Em seguida após dois anos, 2018, aconteceu um marco nos cinemas com o blockbuster “Pantera Negra”, dirigido por Ryan Coogler, o qual acompanhava o retorno do Sr. Boseman e um grande elenco (Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Michael B. Jordan, Angela Bassett, Daniel Kaluuya, entre outros). O poder do primeiro filme é digno para todos que pensam no quesito representatividade, aventura, fantasia, entretenimento e questionais políticos.

Entretanto, o ator Chadwick Boseman veio falecer em Los Angeles (EUA) no dia 28 de agosto de 2020, recorrente de uma batalha de quatro anos contra um câncer colorretal, o qual um roteirista, ou até mesmo o super-herói mais poderoso da Terra, poderia alterar a realidade deste ser tão emblemático e representativo para muitos jovens – e por que não adultos? – nesta vida. Enfim, a pergunta que ficou foi: como será o futuro do personagem após esse trágico acontecimento? Tivemos uma resposta.

“Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” é a continuação direta de “Pantera Negra” com o mesmo diretor, Ryan Coogler, com um viés um pouco mais político sobre o prisma de duas minorais no contexto de uma realidade atual. Diante do primeiro filme, somos introduzidos à Wakanda, um governo monárquico com uma sociedade negra que possui o minério mais poderoso do planeta, personagens com características únicas e fantasiosas, mas que indicam sua localidade propriamente no continente africano – dado no filme e nas histórias em quadrinhos. Ademais, neste segundo filme, somos introduzidos à Talocan, um reino submarino localizado nas profundezas dos oceanos (mais precisamente da costa mexicana), cuja população possui uma divindade como governante, chamado Namor (Tenoch Huerta Mejía) – mais uma vez, dado no filme e nas histórias em quadrinhos. Tais informações são dirigidas muito bem ao longo do filme com uma profundidade e compreensão diferente entre ambas partes, wakandanos e talocanos – mesmo que em alguns momentos, certas explicações de informações introdutórias, pareçam mecânicas demais.

Com a perda de um personagem/uma figura tão importante, é normal que outros ganhem espaço e notoriedade de tela. A rainha Ramonda, interpretada por Angela Bassett, enfrentou o luto do seu marido T’Chaka (John Kani), no primeiro filme, e agora deverá lidar com a ida do seu filho rei T’Challa (Chadwick Boseman). A mudança comportamental da personagem é notória, mesmo que a idade e seus cabelos brancos apareçam, a evolução, o pesar e os diálogos, são todos bem construídos para trama. E claro, vale salientar a bela atuação da Sra. Bassett. Outra personagem que ganha destaque neste longa, mas que senti um pouco de desconforto na atuação da atriz Letitia Wright, foi a princesa Shuri. Ela é a que mais possui tempo de tela, suas ações são decisivas e também sua evolução é crucial para a obra. Com a ajuda das atrizes, o diretor conseguiu transpassar essa ideia de evolução pós-luto. Ademais, destaca-se que o filme produz esse ideal de evolução, aventura e conflitos políticos, mas consegue dosar muito bem o sentimentalismo pós-perda de Chadwick Boseman.

Em detrimento das partes técnicas, a computação gráfica não é perfeita, o uso do Pantera Negra é muito “bonecão”, as naves com um voo estranho e o reino aquático poderia ter sido melhor aproveitado no quesito da ambientação, mas pecou em uma escuridão¹ – a mitologia do personagem Namor foi bem explorada –. Na parte de trilha sonora, as músicas são boas (a volta da cantora Rihanna é uma situação memorável) e os sons de ação são interessantíssimos. Sempre um show à parte, que vale a pena ser citado, são as lutas das Dora Milaje com suas lanças. E notei também o uso em pontos cruciais do slow motion (efeito que deixa a câmera lenta). Por fim, três atos muito bem distribuídos com diálogos sobre questões políticas, enfrentamento do luto e referências do personagem de Chadwick Boseman no MCU, mas tenho certas ressalvas para o último ato, que talvez dê ao espectador um pouco de cansaço pelas 2h42 de filme.

De fato, o novo longa do MCU possui camadas políticas, ao que se refere colonizado e colonizador, camadas sociais entre povos e dentre esses povos, camadas do luto e sobre mitologias. Ao longo destas questões, são inseridos novos personagens, como é o caso da Riri Williams (Dominique Thorne), estopim fundamental para os acontecimentos da trama. E isso é trabalhado de uma maneira agradável, há sim uma aventura, mas acredito que podia ter entregado em menos tempo. Além do mais, não há uma figura vil. O que se vende é o Namor, mas ao assistir, não é assim que funciona. Isso pode desagradar em certos casos.

Diante dos fatos supracitados, “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” é um filme de super-herói com embates psicológicos, sociais e políticos a todo momento. Não há propriamente uma figura, um Pantera como o do primeiro, mas há a evolução de personagens e de uma civilização, a qual parece que o luto sempre está presente, a qual perde seus representações, seu líder, seu motivo para viver, o que na verdade é o contrário. Com uma aventura dramática, histórica, madura e fiel aos quadrinhos, o longa traz novos personagens neste final da Fase 4 e faz jus com dignidade de um legado imutável de Chadwick Boseman como um Pantera.

Eu, como jovem negro e amante de super-heróis, de histórias em quadrinhos e de cinema, digo obrigado a você, Chadwick Boseman.

¹Quem vos escreve assistiu em IMAX

Pantera Negra: Wakanda Pra Sempre
Sinopse
Após a morte do ator de T'Challa (Chadwick Boseman) o foco de Wakanda Para Sempre são os personagens em volta do Pantera Negra. Rainha Ramonda (Angela Bassett), Shuri (Letitia Wright), M'Baku (Winston Duke), Okoye (Danai Gurira) e as Dora Milage lutam para proteger a nação fragilizada de outros países após a morte de T'Challa. Enquanto o povo de Wakanda se esforça para continuar em frente neste novo capítulo, a família e amigos do falecido rei precisam se unir com a ajuda de Nakia (Lupita Nyong'o), integrante dos Cães de Guerra, e Everett Ross (Martin Freeman). Em meio a isso tudo, Wakanda ainda terá que aprender a conviver com a nação debaixo d'água, Talacon, e seu rei Namor (Tenoch Huerta).
4.2
Notas