Godzilla vs Kong | Crítica

Deus vs Machina: Roteiro onde o absurdo não está nas criaturas, e sim, na humanidade

Última atualização:

Análise sobre o filme “Godzilla vs Kong”, da Warner Bros. Pictures (convite da Warner Bros. Pictures BR), aqui no site Cebola Verde. Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Godzilla vs Kong

Estreia: 29 de abril de 2021 (Brasil) – 1h 54min

Direção: Adam Wingard

Elenco: Kyle Chandler, Millie Bobby Brown, Alexander Skarsgård

Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Gênero: Ação, Aventura, Ficção científica


Talvez você não tenha entendido exatamente o subtítulo desta resenha, mas calma que tudo vai ficar esclarecido. Para entender o que vem adiante, eu vou brevemente explicar dois conceitos de narrativa que mudam completamente a forma que enxergamos esse filme. O primeiro é a suspensão de descrença.

Suspensão de descrença nada mais é do que a sua boa vontade como espectador de aceitar como verdade vários elementos da obra que você está consumindo, mesmo que elas sejam fantásticas, impossíveis ou contraditórias. O que isso quer dizer na prática? Esse é um filme sobre dois monstros gigantes brigando. Como espectador você consegue aceitar essas informações sem perder a imersão do filme, mas há vários elementos que podem te tirar da atmosfera criada e te fazer perguntar “Isso é mesmo possível?“. Um desses elementos é a falta de continuidade, o que já é característico da franquia, os filmes parecem não se conectar um com o outro e faz você se perguntar frequentemente “Mas isso não aconteceria assim segundo o outro filme?“. Em uma narrativa ainda que ficcional, algumas regras precisam ser respeitadas. Eu consigo aceitar um macaco de 100 metros, mas para não estranhar esse macaco sendo facilmente aprisionado, transportado por barcos ou aviões, é um esforço constante de se manter imerso no filme. E o filme possui vários desses momentos, principalmente envolvendo elementos de física que dariam um artigo à parte.

Deus ex machina” vem do teatro grego e quer dizer: Deus fora da Máquina. Isso porque as peças muitas vezes envolviam os deuses parados em uma cabina, chamada machina, e quando se precisava de uma solução de última hora, a divindade saía da sua posição – intervindo na história. Esse recurso narrativo ficou bastante conhecido, e você, com certeza, se lembra de filmes em que o protagonista está prestes a morrer e do nada uma solução milagrosa aparece para salvá-lo. Bem, já espere que isso irá acontecer com uma frequência enorme nesse filme. O que torna até irônico já que um dos protagonistas contém a palavra “God” em seu nome e máquinas são peças bem importantes na trama, por isso o trocadilho de mau gosto.

Divulgação/Warner Bros. Pictures

Sobre a continuidade, o filme até tenta em alguns momentos manter esse senso de que está conversando com os anteriores, mas esquece de outras coisas ainda mais importantes. Mesmo assim ele acaba herdando dois principais elementos que valem destaque.

O primeiro é a narrativa humana, herdada diretamente dos filmes do Godzilla, que sempre foi bastante criticada e nesse filme não é diferente. Um dos núcleos dos humanos com os cientistas é até funcional se você desconsiderar todos os absurdos que acontecem e a falta de continuidade, o objetivo era justificar o embate entre os titãs e levar o roteiro do ponto A ao ponto B. Entretanto, fica exatamente problemático quando entramos no núcleo da Millie Bobby Brown e companhia. Esse tenta ser o núcleo cômico, que no final das contas, oferece só teorias da conspiração e raiva no espectador, que é de novo arrastado ao cortarem uma cena interessante. Ao mesmo tempo, esse núcleo seria para tentar humanizar o Godzilla e apresentar o real antagonista da trama, e eu nem preciso dizer que nenhum dos dois funcionam. Eu vou me guardar de opinar sobre os antagonistas extremamente cartunescos e rasos para não dar spoiler, mas deixo aqui uma observação:

Precisamos mesmo de um japonês em todo filme só para chamar o Godzilla de Gojira?

Mas se temos uma tentativa de humanizar o Godzilla, também temos com o Kong e… funciona. Primeiro que o Kong em seu filme solo já era mais carismático que o Godzilla, e aqui o filme já abre com ele e demonstra a sua relação com uma nativa da ilha, que é provavelmente o único ser humano que eu me importei nesse filme. Uma curiosidade é que isso parece herdado dos filmes do Kong fora dessa franquia, pois o filme de Peter Jackson e até mesmo o clássico com a Jessica Lange como a mocinha indefesa, já utilizava desse fator humano para simpatizarmos com o Kong. Eu, particularmente, acho esse Kong carismático por si só, em Kong: Ilha da Caveira eles até flertam com essa ideia de introduzir uma donzela, mas desistem. Porém, aqui a relação entre o titã e uma pequena criança funciona tanto ‘narrativamente‘ quanto para nos dar a escala do tamanha da criatura – situação que os filmes do Godzilla faziam até o espectador se cansar –, aqui temos algumas cenas que já nos mostram a dimensão do titã que estamos lidando.

Parece-me que a Warner queria criar o seu Batman vs Superman só que com opiniões mais populares vindo do público, mas, no final, 99% das cenas com humanos poderiam ser retiradas que iriam deixar o filme até melhor.

Mas então, as brigas são boas pelo menos?

Olha, posso te dizer que sim! Eu gostei bastante das lutas (principalmente se você relevar os absurdos). As cenas são empolgantes e os efeitos especiais estão bem funcionais, me dando vontade de ver mais cenas de ação inclusive. No meio de tantos diálogos expositivos, decisões que não fazem o menor sentido, a falta de explicações de elementos dos filmes anteriores que deviam aparecer aqui, ver as cenas de confronto entre os titãs quase faz você esquecer que está vendo um filme sem nexo algum. Por isso até dá mais raiva quando esses momentos são cortados, eu não quero saber sobre a Terra oca, eu quero ver colossos lutando, e no final das contas isso o filme entrega de maneira mais satisfatória do que eu esperava, considerando os filmes anteriores.

No final das contas, vemos até um esforço em apresentar uma fotografia interessante, contrastando o laranja dos céus com o azul do mar, e até mesmo o CGI que faz bem pelos e água, que são os elementos mais difíceis de se fazer. Além de que, conforme o filme avança, os efeitos parecem perder qualidade, mas nada que vá te tirar da imersão. Mas parece que o esforço acaba aí, a montagem do filme é uma bagunça, cortes anticlimáticos, montagem no mínimo esquisita que nos faz questionar frequentemente a passagem de tempo, uma trilha sonora quase inoperante e no final até confusa, e por último, mas não menos importante, um roteiro imerso em facilitadores de narrativa que mais te tiram da própria.

Godzilla vs Kong
Sinopse
Em Godzilla vs Kong, duas poderosas forças da natureza vão se enfrentar em uma grande batalha. Enquanto a organização científica secreta Monarch caça, investiga e estuda a origem dos Titãs, uma conspiração tem a intenção de acabar com todas as criaturas, sejam elas ameaçadoras ou não. O mundo sobreviverá ao duelo de monstros?
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