Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis | Crítica

Marvel aprende com os erros, mas ainda se limita pela fórmula

Análise sobre o filme “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, da Marvel Studios (a convite da Walt Disney Pictures BR), aqui no site Cebola Verde. Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings)

Estreia: 02 de setembro de 2021 – 2h 12min

Direção: Destin Daniel Cretton

Elenco: Simu Liu, Tony Leung Chiu-Wai, Awkwafina

Distribuidora: Walt Disney Pictures

Gênero: Ação, Fantasia


Shang-Chi: A Lenda dos Dez Anéis é um daqueles projetos que quando anunciados eu tinha certeza de que seria engavetado (novamente), uma vez que o personagem não é tão popular nos quadrinhos, tem pouquíssimas aparições na cultura pop, e diversas tentativas de produção em live-action já foram feitas. Mas assim como “Guardiões da Galáxia” (2014), o filme foi uma grata surpresa; diria até ser um dos melhores filmes solo de apresentação de personagem que a Marvel já fez, mas está longe de ser um filme livre de defeitos de estrutura narrativa. Assim como em “Doutor Estranho” (2016), temos um mundo novo, com uma rica mitologia que instiga o espectador a querer saber todos os detalhes sobre os cada objeto mágico, personagem, criatura e poder desse novo universo, mas a narrativa parece puxar o tapete do espectador diversas vezes para que possa seguir com a trama, que muitas vezes se torna pouco orgânica e previsível.

Divulgação/Disney

Como o filme possui inúmeras qualidades que valem a pena serem citadas, vou iniciar dizendo o que menos funcionou, assim ficamos livres desse peso para discutirmos as adaptações feitas, o elenco, os efeitos desse filme em todo esse universo da Marvel, desde as séries mais esquecidas até os núcleos mais importantes dessa fase audiovisual da Marvel. Como de costume, não pretendo dar spoilers do filme, mas alguns aspectos eu gostaria de comentar, e embora eu não ache que irá estragar sua experiência, aviso que comentarei sobre a jornada de alguns personagens para exemplificar meus pontos. Aviso assim que acabar de comentar esses pontos.

(O parágrafo a seguir pode conter spoiler de uma aparição não anunciada nos trailers)

Primeiramente, gostaria de falar como gostei da personagem da Awkwafina nesse filme. A atriz é extremamente magnética, e embora no trailer parecesse apenas uma personagem genérica de alívio cômico, ela é o coração desse filme, a partir dela que criamos conexão com o protagonista e, de forma bem balanceada, ela não se apaga em meio aos acontecimentos ao mesmo tempo que não toma todo o carisma do filme para si. Katy traz bastante da cultura de asiáticos que vivem em outros países, de forma sensível, engraçada além de fazer o papel do espectador dentro do filme, uma ferramenta bastante eficaz de roteiro para descobrirmos a trama através de um cidadão comum. O problema está justamente no humor do filme, não que ele seja ineficaz, todos na sessão deram boas risadas, mas assim como de costume dos filmes da franquia ele é usado em vários momentos para amenizar momentos de peso dramático, sendo esses momentos as partes mais interessantes do filme (comento sobre isso mais abaixo). Foi uma grata surpresa ver o personagem do Mandarim de “Homem de Ferro 3” (2013), serve como um ótimo alívio cômico, uma ótima redenção para o personagem tão mal desenvolvido no seu filme de aparição. Mas assim como Katy, a tentativa de dar uma importância maior no terceiro ato aos personagens cômicos fazem o espectador se perguntar diversas vezes o porquê daqueles personagens ainda estarem na trama, como sobreviveram até aquela altura da estória e como tais habilidades foram subitamente atribuídas só para que eles terem participação na resolução final. FIM DOS SPOILERS

Mas além disso outros elementos me incomodaram no filme, e a maior parte deles estão ligadas aos mesmos núcleos. Primeiro, a figura do sábio mentor asiático que não tem desenvolvimento algum, o que é triste pois acontece com duas personagens diferentes e cruciais para a trama. Chega ao ponto do segundo ato, onde deveríamos ter mais respostas e desenvolvimentos dos elementos já apresentados, ficar cansativo por falta de tempo para entender toda a lore do universo e pularem várias etapas para avançar com o núcleo principal. Ao mesmo tempo que o filme parece pequeno para abranger todas aquelas personagens, ele parece apressado para pular entre uma cena de ação para a outra, dando a impressão que existe essa “barriga” no meio disso. O filme tem mais de 2 horas, com um pouco de calma poderiam ter explicado melhor as personagens e suas habilidades de forma que no terceiro ato não ficássemos confusos de como algumas coisas são possíveis e quais os limites dessas habilidades, e isso se aplica também aos anéis, cuja história e poderes nunca ficam totalmente claras. Por último, o que mais me tirou do filme foi justamente as ligações inorgânicas e gratuitas com o resto do universo cinematográfico, me fazendo pensar que essa história funcionaria melhor de forma mais contida e autocentrada. Algumas das tentativas de conexão geram mais perguntas do que o sentimento que está tudo conectado, como a franquia nos quer fazer acreditar. A influência da organização dos Dez Anéis pode ser vista durante pequenas menções em diversos filmes desde Homem de Ferro (2008), mas a real importância não é tratada no filme como deveria. Além de vários eventos mostrados nesse filme gerarem aquelas perguntas que ficam cada vez mais frequentes no MCU: “Onde estava certo personagem esse tempo inteiro?”

Apesar da grande representatividade asiática no filme, seja no elenco ou na produção inteira, senti falta de ver pessoas amarelas divulgando o filme, criando conteúdo e até mesmo sendo chamadas para as cabines. Toda a discussão de representatividade cultural e étnica ficaria muito mais rica dessa forma. Mas do meu ponto de vista, o filme foi bastante respeitoso e tentou evitar estereótipos, embora acabe se utilizando de alguns deles em alguns momentos, é um grande passo para um cinema blockbuster cada vez mais inclusivo. Poucas vezes durante o filme temos aquelas cenas típicas em obras estadunidenses onde não tem motivo logico, mas os personagens falam inglês somente para evitar o uso de legendas.

Com certeza o que mais atrai o publico para esse filme são as cenas de luta, que na minha opinião estão estonteantes. Não costumo ser o tipo de pessoa que gosta das cenas de ação, mas aqui elas são bem inventivas, bem coreografadas, frenéticas e com uma fisicalidade impressionante que me fez pensar em como a Marvel poderia ter se utilizado disso em “Punho de Ferro” (2017-2018) e o grande potencial desperdiçado também com o recentemente lançado “Viúva Negra” (2021). As lutas ocorrem em cenários diferentes, diferentes números de desafiantes de diversas escalas diferentes, as armas desde uma simples adaga até os próprios anéis que dão título (que por razões de estética de combate, e referenciando acessórios reais de algumas artes marciais foram substituídos por argolas usadas como braceletes) ao filme são utilizados de forma fora do padrão automático. Em diversos momentos me remeteu a diferentes cenas de ação de diversas obras como John Wick, Capitão América 2, Kill Bill, O Tigre e o dragão e até mesmo as animações de Avatar. Boa parte dessas cenas funcionarem está na direção que entende muito bem como e onde cortar os planos, não ficando algo extremamente picotado, e também em intercalar com flashbacks e se utilizar da ação não apenas como cena de entretenimento, mas como forma de mover a narrativa desde o início.

Divulgação/Disney

 

A apresentação do nosso protagonista, seu cotidiano e seu status quo é bastante rápida e eficaz, se utiliza de artifícios antigos do cinema como narração ou diálogos expositivos, mas que não chegam a incomodar devido as boas interpretações de todos os atores e o fascínio que o espectador tem com os cenários, figurinos, objetos de cena, bons efeitos visuais e a relação entre os personagens (que na opinião de quem vos fala, é o maior acerto do filme). Os atores têm uma química incrível, e isso é imprescindível pois mais que uma história de origem do herói essa é uma história sobre família, e todos os personagens te convencem disso, até mesmo o antagonista. O maior ponto do filme, talvez o que o salve de ser mais um filme genérico na média da Marvel e o torna um dos melhores filmes de origem é justamente o coração que o filme tem. A forma como o relacionamento entre os principais personagens é complexa e crível me fez pensar que talvez uma terapia resolveria quase que toda trama, os personagens não fogem dos arquétipos já conhecidos, mas tornam a maior parte de suas decisões mais cinzas e menos maniqueístas.

Apesar disso, Shang-Chi: A Lenda dos Dez Anéis poderia ser maior, mas mesmos com as limitações da fórmula de narrativa já conhecidas deixa um sabor melhor que Doutor Estranho, por exemplo, que também tinha grandes ambições, mas que no saldo final foi visualmente lindo e com pouco conteúdo. Aqui você vai se encantar com as lutas, as personagens, as criaturas de uma forma que as vezes acaba se esquecendo que faltam muitas respostas e que as motivações do antagonista não sejam tão justificáveis quanto o roteiro quer nos fazer acreditar. Mas nos presenteia com uma mitologia que pode e deixa ganchos para os futuros filmes, sejam eles aventuras solos do protagonista ou peças para a construção de todo o universo cinematográfico da Marvel a partir daqui (embora as duas cenas pós-créditos fizessem mais sentido se inseridas no conjunto do filme).

Shang-Chi
Sinopse
Em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, acompanhamos a história de Shang-Chi (Simu Liu), um jovem chinês que foi criado por seu pai em reclusão para que pudesse focar totalmente em ser um mestre de artes marciais. Entretanto, quando ele tem a chance de entrar em contato com o resto do mundo pela primeira vez, logo percebe que seu pai não é o humanitário que dizia ser, vendo-se obrigado a se rebelar e traçar o seu próprio caminho.
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