Duna (2021) | Crítica

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Última atualização:

Análise sobre o filme “Duna”, da Warner Bros. (a convite da Warner Bros. Pictures BR), aqui no site Cebola Verde.

Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Duna (Dune)

Estreia: 21 de outubro de 2021 – 2h 36min

Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Zendaya, Dave Bautista, Jason Momoa, Javier Bardem

Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Gênero: Ficção científica, Drama


Antes da sinopse, gostaria de fazer algumas observações iniciais (como de praxe). Primeiramente, como de costume, essa resenha NÂO contém spoilers. Segundo, gostaria de esclarecer que não li o livro, embora esteja familiarizado com o universo. E por último, comparações com a adaptação feita por David Lynch em 1984 poderão ser feitas, mas não se assuste caso seja um espectador casual e só queria saber se o filme é uma boa pedida para essa volta gradual aos cinemas que estamos presenciando. Para melhor andamento do texto, dividirei em tópicos, pois assim poderão encontrar o tema que mais quiserem sem necessariamente ler tudo que tenho a dizer sobre o filme.

 

Sobre o enredo

Duna é a adaptação do livro homônimo de Frank Herbert, nos anos 60. A história acompanha Paul Atreides, interpretado nessa versão por Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome). Paul é  herdeiro do Duque Leto Atreides , interpretado por Oscar Isaac (Ex Machina) em um futuro distante no meio de um império intergaláctico feudal em expansão, onde feudos planetários são controlados por Casas nobres que devem aliança à casta imperial. A casa Atreides é transferida para o planeta Arrakis, que antes era dominado pela casa rival. O planeta Arrakis, também conhecido como Duna pela sua imensa escassez de água, é a única fonte de uma especiaria responsável pelas viagens interestelares, e em alguns casos, expansão mental. Visto a hostilidade do planeta, seja pelos habitantes locais, a falta de recursos ou vermes de areia gigantes, a promoção para esse planeta que poderia deixar a casa Atreides rica, se mostra cada vez mais como uma verdadeira armadilha.

Todo esse universo é extremamente complexo, e tentar fazer um recorte, ainda mais sem spoilers, é uma tarefa quase impossível. Mas temos que prestar atenção em alguns outros detalhes: Paul, além de herdeiro de um poderoso lorde, também é filho de uma Bene Gesserit, uma classe de mulheres sacerdotisas que possuem grande poder, seja físico ou político. Tudo em Paul nos mostra que ele é um clássico herói predestinado às maiores grandezas, seja por uma profecia das Bene Gesserit ou dos fremen, povo local de Duna que também espera por uma figura messiânica. Essa é uma história que explora as complexas interações entre política, religião, ecologia,  evolução, tecnologia e escolhas e consequências em alicerce às emoções humanas. O destino de Paul, sua família, seus aliados e do próprio Imperium vai servir como inspiração para inúmeras obras das mais diversas mídias, sendo um clássico não só do gênero de ficção especulativa como para a literatura e tudo que se inspira nela. Não se espante ao ver semelhanças com Star Wars, Game of Thrones ou até mesmo nosso querido filme nacional Acquária, protagonizado pela dupla de irmãos Sandy e Junior.

Mas não se deixe espantar pela complexidade, a história é envolvente e o filme te dá tempo para entender quase todos os elementos que compõem essa história de forma expositiva, na maior parte das vezes, e embrulha em cenas de ação que deixam o espectador com o olhar preso na tela.

Contexto do filme

Visto que é uma obra muito importante e que tem milhões de fãs pelo mundo, as expectativas por essa adaptação eram gigantes. O diretor encarregado desse desafio é Dennis Villeneuve, que acumula grandes obras em sua cinematografia como A Chegada (2016), Blade Runner 2049 (2017), O Homem Duplicado (2013), Sicario (2015) e Os Suspeitos (2013), sendo particularmente um dos meus diretores favoritos. Villeneuve sempre se demonstrou um grande fã da obra, e parecia a pessoa perfeita para fazer essa adaptação. O diretor optou por dividir o primeiro livro em um filme de duas partes, então tenha em mente que essa é a primeira parte de uma história, então muitos dos personagens terão um desenvolvimento maior apenas na segunda parte.

O filme deveria ter sido lançado ano passado, mas por conta da pandemia foi adiado em quase um ano, muito porque o diretor recusou que seu filme fosse exibido em streaming, a fim de garantir a segunda parte do filme através das bilheterias, mas também pelo preciosismo em exibir uma obra tão grandiosa em uma tela que a fizesse jus, chegando a ser alvo de polêmicas ao falar que assistir seu filme em casa seria como andar de lancha em uma banheira.

Concordando ou não com o posicionamento do diretor, tenha em mente que assisti esse filme em IMAX mas ressalto que, apesar da experiência incrível de assistir no cinema na maior tela possível eu recomendo que priorize a sua saúde e de sua família, caso seja ou conviva com pessoas mais vulneráveis à situação da pandemia, espere até que o filme saia na HBO Max, toda forma de assistir o filme é válida desde que não prejudique sua saúde e a segurança dos demais.

Divulgação/Warner Bros.

Aspectos técnicos

Com um elenco cheio de estrelas, um orçamento considerável e um diretor mais que competente, era de se esperar que esse filme fosse no mínimo bom. Começando a análise pela direção, afirmo que Dennis Villeneuve era sim a pessoa ideal para coordenar esse filme, mas não necessariamente trabalhou com os melhores profissionais em suas respectivas áreas. Não querendo desmerecer o trabalho de nenhum profissional envolvido, até porque nenhum deles faz um trabalho ruim, mas já vimos antes como o diretor consegue entregar um primoroso trabalho audiovisual com profissionais que estão acima da média. O grande destaque aqui fica por conta de Hans Zimmer na trilha sonora, Zimmer já é uma lenda no cinema, mas o trabalho feito aqui é simplesmente impecável, a trilha dá o tom perfeito tanto para as cenas mais monótonas e consegue arrepiar nas cenas com mais ação, eu apostaria uma indicação ao Oscar aqui.

Já a fotografia talvez tenha sido uma das minhas maiores decepções, o trabalho de Greig Fraser é lindo e quase sempre funciona bem, mas conhecendo o histórico do diretor  com o diretor de fotografia Roger Deakins, fiquei imaginando na maior parte do filme como Deakins teria filmado aquelas cenas, e considerando a sua renomada carreira, considero que seu envolvimento no projeto seria uma peça central para passar o filme de “muito bonito” para “esplendoroso”. Embora, obviamente, não dependesse só da fotografia, mas a própria direção de arte do filme parece inventiva em certos momentos, mas em outros parece entregar mundos quase monocromáticos.

 

No roteiro e na montagem do longa, sinto que foi onde houve os maiores desafios. Transpor uma narrativa tão rica e complexa de forma que movimente suficientemente o filme, mas sem parecer corrido ou muito expositivo foi o maior problema da versão de 1984. Aqui a maior parte dos diálogos continuam expositivos, porém encaixados de forma em que pareça mais natural no contexto do filme, e muito disso se deve também às boas interpretações do filme, principalmente vindo de Rebecca Ferguson e Oscar Isaac, que embora não tenham tanto espaço quanto eu gostaria foram os maiores destaques do elenco. Elenco esse que foi muito bem escalado, assistindo ao filme vê-se a necessidade de rostos bem conhecidos mesmo em personagens secundários, assim evita que o espectador se perca na trama (como aconteceu comigo ao rever a versão de Lynch). Talvez minha maior ressalva seja com Timothee Chalamet como Paul, o ator já se demonstrou capaz de transmitir emoções complexas em outros filmes e até mesmo em Duna, o grande problema é a apatia que o personagem gera no espectador, a mesma apatia que o próprio personagem parece lidar com alguns eventos do filme, embora o arco messiânico de Paul o leve para esse caminho, talvez por um desequilíbrio na direção, no roteiro ou com o próprio ator, Paul acaba sendo um personagem quase que desinteressante em meio a situações extremamente envolventes que o cercam, principalmente no início do longo uma vez que suas características tornam-se mais justificáveis a partir do fim do segundo ato.

 

Concluindo essa parte, o terceiro ato parece o mais bagunçado, arrastado e acaba causando um estranhamento ao vermos alguns personagens que já apareceram anteriormente no longa. Seja por ter um espaço sobrando para alguns personagens em contextos não tão adequados, pelo sumiço e reaparecimento de certos núcleos ao longo do filme, ou a falta de justificativa plausível da expectativa gerada em torno de outros personagens.

 

Essa é a versão definitiva dessa história?

Alejandro Jodorowsky, importante cineasta chileno-francês tentou adaptar essa saga no século passado, se tornando um dos projetos mais ambiciosos de Hollywood o filme iria contar com cerca de 7 horas, trilha sonora do Pink Floyd e os maiores nomes das partes técnicas na época. O projeto continha no elenco ninguém menos que Salvador Dalí, Mick Jagger e Orson Welles. O projeto acabou não se concretizando, mas era de um interesse tão grande que rendeu um documentário sobre ele. O que mais me chama atenção são as artes conceituais feitas pelo artista Moebius que mostram como o filme seria visualmente deslumbrante.

Mas o projeto de adaptação mais conhecido até então foi o de David Lynch em 1984, que na época já foi considerado um fracasso crítico e de público. Embora o próprio Lynch tente renegar esse filme da sua filmografia, eu ainda considero ele muito relevante em alguns sentidos. Mas de qualquer forma, respondendo a pergunta que eu mesmo propus, esse filme é a versão definitiva dessa história? De forma alguma.

O livro se prova cada vez mais como uma obra não só atemporal como cada vez mais relevante. Embora Duna (2021) seja um ótimo filme, ele nunca seria capaz de abranger toda a grandeza de significados e a complexidade dos elementos dessa história de forma que a leitura seja dispensável. Até em aspectos visuais sinto que esse filme poderia ter aprendido bastante com o projeto de Jodorowsky, e até mesmo com o filme de Lynch, principalmente nos segmentos que envolvem sonhos e visões.

O mais importante, na minha concepção, era o filme não só contar bem essa boa história, mas que ele a fizesse de forma que transmitisse as mensagens que  Frank Herbert atribuiu à obra, ao mesmo tempo que tenha algo de novo á dizer, assim como o diretor fez com Blade Runner, e acho que esse acaba sendo o maior pecado dessa primeira parte. Acho que muito disso ainda pode ser corrigido na sequência, mas não deixo de pensar em como o público pode acabar recebendo esse filme como apenas mais uma história dentre tantas outras.

Duna
Sinopse
Inspirado na série de livros de Frank Herbert, Duna se passa em um futuro longínquo. O Duque Leto Atreides administra o planeta desértico Arrakis, também conhecido como Duna, lugar de única fonte da substância rara chamada de "melange", usada para estender a vida humana, chegar a velocidade da luz e garantir poderes sobrehumanos. Para isso ele manda seu filho, Paul Atreides (Timothée Chalamet), um jovem brilhante e talentoso que nasceu para ter um grande destino além de sua imaginação, e seus servos e concubina Lady Jessica (Rebecca Fergunson), que também é uma Bene Gesserit. Eles vão para Duna, afim de garantir o futuro de sua família e seu povo. Porém, uma traição amarga pela posse da melange faz com que Paul e Jessica fujam para os Fremen, nativos do planeta que vivem nos cantos mais longes do deserto.
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Notas
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