The Batman | Crítica

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Análise sobre o filme “Batman”, da Warner Bros. Pictures (a convite da Warner Bros. Pictures BR), aqui no site Cebola Verde.

Confira a ficha técnica da trama:

Nome: Batman (The Batman)

Estreia: 03 de março de 2022 – 176 minutos

Direção: Matt Reeves

Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Colin Farrell, Jeffrey Wright, Barry Keoghan, Andy Serkis

Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Gênero: Ação, Aventura, Drama


De forma geral Batman é um novo olhar sobre o herói, que na verdade já é antigo para quem acompanha o personagem fora das telas. A história é muito familiar e previsível mas a forma como o filme escolhe não se utilizar dos padrões de filmes blockbusters para solucionar a ação e investigação deixa o espectador intrigado do começo ao fim, como o sentimento de estar assistindo uma minissérie que por mais que o filme tenha quase 3 horas de duração senti que facilmente assistira mais 3 horas. Esse não é meu filme favorito do personagem, mas Matt Reeves com sua visão neo noir acoplado do elenco extremamente talentoso entregam o que mais falta nesse meio de filmes baseados em histórias em quadrinhos, eles entregam cinema na sua forma pura, seja pelo bem ou mal da adaptação.

Sinopse: “Dois anos vigiando as ruas como o Batman (Robert Pattinson), causando medo nos corações dos criminosos, acabou levando Bruce Wayne às sombras da cidade de Gotham. Com apenas alguns aliados de confiança – Alfred Pennyworth (Andy Serkis) e o Tenente James Gordon (Jeffrey Wright) — entre a rede corrupta de oficiais e figuras importantes da cidade, o solitário vigilante se estabeleceu como a personificação da vingança entre os cidadãos de Gotham.”

A ideia de um filme do Batman mais focado na investigação já era alvo de rumores desde a versão prometida pelo Ben Affleck, porém aliar isso a uma versão mais nova do personagem foi uma grande sacada uma vez que, não apresentando a origem já conhecida por todo mundo, o filme foca no símbolo que o homem morcego carrega. Misturando diversas referências desde Longo dias das bruxas (arco clássico de investigação do personagem) até mesmo os jogos da série Arkham e Telltale o filme cria uma ambientação única, com uma história pouco original mas conduzida de maneira única. Digo de maneira única pois a narrativa me causou uma certa estranheza, embora de fato lembro filmes que foram referências para o Mat Reeves como Chinatown, e outro que são impossíveis de não remeter como Se7en e Blade Runner, o filme tem uma distribuição de personagens no mínimo singular uma vez que temos praticamente um núcleo. Desde os filmes do Christopher Nolan o Batman é interpretado nas telas como sempre realista e sério, o que não necessariamente é a única visão do personagem mas embora esse filme tente criar um universo assim a breguice e o humor também estão presentes de forma surpreendente mas talvez não tanto quanto devia. Me pergunto se ainda veremos uma visão mais leve e descolada da realidade como o personagem também merece.

No geral os aspectos técnicos de Batman são impecáveis. A maquiagem do Pinguim vale um destaque pois deixa o Colin Farrell praticamente irreconhecível porém de modo crível e deixando espaço para a atuação. Porém os maiores destaques estão na fotografia, especialmente no uso de sombras, luz e paleta de cor bem reduzida de forma que nos remete diretamente aos filme noir e neo noir mas criando uma atmosfera própria mergulhando Gotham City em trevas, e a trilha sonora composta por Michael Giacchino é épica e introspectiva, certamente um trabalho memorável, enquanto o uso de músicas como “Something in the Way” da banda Nirvana ou o clássico cristão “Ave Maria” adicionam camadas de significado de imersão de forma exemplar. Sobre o design de produção, acredito que possa ser um divisor de águas pois os uniformes realistas e funcionais trazem de novo a mensagem de que o filme está se levando a sério demais onde nem precisava, mas ao mesmo tempo constrói uma Gotham habitada e poluída, lembrando a grandes cidades onde o crime e a corrupção se proliferam em um ambiente marcado por grandes disparidade social.

Uma coisa central que comentam é como o Batman é de fato o protagonista desse filme, claro que ele também é protagonista dos demais longas porém sempre se dividia a atenção com os vilões e a figura do Bruce Wayne, nesse filme o Paul Dano brilha demais como o Vilão Charada mas em momento algum chega a competir protagonismo com o Batman, já o Robert Pattinson entrega um Homem morcego perturbado embora não tenha me convencido tanto como Bruce Wayne, o que não necessariamente um problema pois poucas vezes vemos o ator fora do traje. Dizem que para termos um bom filme de herói, precisamos de um bom vilão e nesse quesito o longa não economiza tempo para desenvolver a suposta dicotomia entregando uma perspectiva de personagem que estava em falta nas grandes telas, a forma como o Batman e seus vilões vivem em um ciclo de retroalimentação é muito interessante mas o filme trabalha de forma um pouco superficial, porém o suficiente para colocar na cabeça do espectador uma pergunta crucial: afinal qual a diferença entre o herói e o vilão aqui? Mas embora a ética e perfil psicológico nesse jogo de gato e rato que se desenvolve no filme seja o foco, ele não é o único pilar desse filme. O casting dos coadjuvantes está perfeito, Colin Farrell como Pinguim serve de alívio cômico enquanto promete uma grande ameaça para o futuro, a Zoe Kravitz está fenomenal como Mulher Gato de forma que mal consigo distinguir a personagem da atriz, Jeffrey Wright entrega um Gordon com uma presença e determinação que eu nunca senti em nenhuma outra mídia enquanto Andy Serkis representa um Alfred inteligente e preocupado. 

The Batman é definitivamente um dos filmes do Batman já feitos. Claro que em tom de piada essa frase poderia se tornar pejorativa, mas no caso desse filme em específico se torna uma de suas maiores qualidades. Primeiro por não se preocupar em ser um filme definitivo do Batman, assim não precisamos ver a origem do personagem nem todos os elementos e personagens que compõem sua jornada, mas principalmente é de seu grande mérito ele ser apenas um filme, ser cinema, coisa que quase nenhum outro filme sobre super-heróis tenta ser. É recompensadora a forma como o filme não precisa de cenas apocalípticas para refletir os dilemas entre personagens, ou não coloca 5 trajes diferentes para vender bonecos e animar o público com coisas superficiais como ‘qual será a próxima referência?’, alguns personagens mesmo que não utilizados em seu auge, podemos afirmar que muitas vezes até subaproveitados, conseguem um momento próximo de maneira orgânica, o diretor guarda várias cartas em duas mangas para futuras continuações e spin-offs mas não deixa que esse seja o direcionamento principal do filme. O ritmo é problemático e a forma de condução do filme e temas não devem agradar a todos. Batman funciona mais como um filme de herói bebendo das fontes de filmes neo noir do que um filme de investigação conciso, o que me leva a perguntar se não funcionaria melhor como uma minissérie onde teria mais tempo de desenvolver cada personagem ou tema, ou se o filme não poderia ser encurtado e ter um terceiro ato mais firme.