A Lenda de Candyman (2021) | Análise

Filme de Nia DaCosta retrata o racismo estrutural e a violência infligida à comunidade negra na nossa sociedade.

A Lenda de Candyman” conta a história de Anthony, um artista plástico que vive no bairro de Cabrini Green, em Chicago.

Tudo começa a acontecer quando Anthony encontra um antigo morador do bairro enquanto explora o que restou de antigos conjuntos habitacionais, ele é apresentado à história de Candyman — um homem negro assassinado injustamente.

Lutando para manter seu status numa comunidade artística predominantemente branca, Anthony passa a explorar essa história trágica em seu estúdio, como uma fonte de inspiração. Sem saber, ele abre uma porta para um passado macabro que acaba desencadeando uma nova onda de violência em Cabrini Green.

 

Reflexos da Realidade

Ao longo da trama é inevitável enxergar a crítica social à violência racial, principalmente pelas mãos da força policial, que sublinha o roteiro, além dos reflexos da realidade da comunidade negra, especialmente nos EUA.

A primeira coisa é o conceito de Candyman. Ao decorrer do filme, percebe-se que Candyman não é uma pessoa, e sim uma entidade, um conceito atemporal. A personificação de tudo que assombra a comunidade negra ao longo da história — dor, injustiça, morte; o fantasma de todos os homens negros injustamente assassinados pelas mãos do racismo estrutural e sistemático que permeia as partes mais profundas da sociedade contemporânea.

O próprio processo de transformação onde Anthony gradativamente incorpora o Candyman a partir de uma picada de abelha representa, literalmente, a epidemia de violência racial que assola os EUA e o mundo, e vai apodrecendo a sociedade de dentro para fora.

Outro reflexo é a frase “diga o nome dele”, que ecoou repetidamente em todo o mundo durante os protestos do movimento Black Lives Matter, urgindo que os nomes das vítimas de violência racial fossem repetidos para não serem esquecidos.

Além disso, as histórias ilustradas através de bonecos de papel refletem a extensa trajetória de violência cometida contra a população negra ao longo da história.

 

2021 vs 1992

Em “O Mistério de Candyman”, de 1992, Cabrini Green era só mais um bairro violento e marginalizado, repleto de conjuntos habitacionais e populado por negros e pobres. Neste filme, enxergamos os acontecimentos pelos olhos de Helen Lyle, uma mulher branca cujo medo se fundamenta no fato de ela estar num espaço onde, supostamente, não deveria estar; um espaço que oferece perigo a ela, um “espaço negro”.

Em “A Lenda de Candyman”, os conjuntos habitacionais deram lugar a condomínios de luxo. Após um processo de gentrificação, Cabrini Green agora é um bairro nobre, descolado, mas que ainda carrega o fantasma do que um dia já foi. Em contraposição ao filme de 1992, quem compartilha sua perspectiva com o público neste filme são Anthony e Briana — sua namorada —, cujos medos se fundamentam no fato de estarem inseridos num lugar que, supostamente, não lhes pertence; um lugar que oferece perigo a eles, um “espaço branco”. Ou seja, há uma intensificação do medo do que os brancos são capazes de fazer com a população negra, e não mais o contrário.

 

 

“A Lenda de Candyman” é um convite a conhecer outro tipo de terror, o tipo mais aterrorizante e macabro de todos: a realidade.

Sinopse
Um jovem artista cria uma exposição sobre Candyman, uma criatura maligna que, segundo as lendas, pode ser invocada diante de um espelho. Aos poucos, o fascínio do rapaz pelo monstro o joga em uma trama de mistérios, sangue e morte.
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Notas
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